quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Teresa D'Ávila : oração e contemplação

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Teresa D’Ávila, com seus escritos “Castelo Interior” e “Caminho de Perfeição”, ofertou ao mundo sua própria experiência de vida contemplativa e, pela literatura, seu lado místico imorredouro.
 *Artigo do Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE,
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘No dia 15 de outubro recorda-se na Igreja uma mulher totalmente voltada à contemplação e ao absoluto de Deus que, como Maria, escolheu a melhor parte e não lhe será tirada. Trata-se de Santa Teresa de Jesus, religiosa carmelita espanhola (1515-1582), que marcou uma época, sobretudo por sua talentosa sabedoria e inteligência, identificada e configurada com Jesus de Nazaré, levando uma vida de oração, oferecendo um dadivoso e restaurador banho de fé à humanidade, legado espiritual de graças e bênçãos para a nossa civilização cristã. Igualmente, consciente de que a oração é o bem maior e a porta de entrada para a perfeição, exatamente quando o mundo se alargava através das grandes navegações, conquistas e descobertas humanas, é que surge Santa Teresa como dádiva, dom e graça de Deus.
Teresa D’Ávila, uma criatura humana exemplar, descomunal e atemporal, bem que pode ressoar, hoje, na vida dos cristãos como um verdadeiro milagre do inefável mistério de amor. Não tenho dúvida alguma de tratar-se de uma mulher fortemente movida pelo Espírito de Deus. É assim que percebo o interior de nossa Irmã D’Ávila, nas suas surpreendentes aventuras pelo misterioso caminho do mundo interior, tendo por base o Livro Sagrado : ‘Como a corça que suspira pelas águas da torrente, assim minha alma suspira por vós, Senhor. Minha alma tem sede do Deus vivo’. Ela é considerada fundadora dos Carmelitas Descalços, juntamente com São João da Cruz, aquele da célebre frase, a saber : ‘No entardecer desta vida, sereis julgados segundo o amor’.
Teresa D’Ávila, com seus escritos ‘Castelo Interior’ e ‘Caminho de Perfeição’, ofertou ao mundo sua própria experiência de vida contemplativa e, pela literatura, seu lado místico imorredouro. Como soube ela colocar diante dos olhos, na mente e no coração o Deus grande, glorioso e esplêndido, sendo a razão do seu viver, indicando-nos o caminho da transcendência e da benevolência divina. A seu exemplo, fixemos nosso olhar no mistério a envolver, no sentido mais profundo, a suma felicidade : ‘Nada te perturbe. Nada te amedronte. Tudo passa, só Deus não muda. A paciência tudo alcança. A quem tem Deus nada falta. Só Deus basta!’. Assim seja!’

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terça-feira, 17 de outubro de 2017

Comovida, comunidade egípcia condena assassinato de sacerdote copta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



‘O assassino de Sam'an Shehata, sacerdote copta ortodoxo egípcio, esfaqueado até a morte em 12 de outubro, é ‘um criminoso conhecido das forças de ordem’, chamado Mohamed Sonbaty.
É o que afirma em uma nota o Bispo de Beba, Abba Estiganous, ao comentar que por  trás do ‘martírio’ do sacerdote poderiam existir elementos de matriz confessional.
No Egito ainda é forte a comoção pelo bárbaro assassinato do sacerdote copta-ortodoxo, ocorrido em uma área periférica da capital. Nas redes sociais circulou um vídeo que mostra o suspeito seguindo o sacerdote e depois desferindo golpes em seu rosto e pelo corpo.
A Igreja Copta Ortodoxa no Egito já definiu Sam'an Shehata como ‘mártir’, morto ‘por ódio à fé’, ao mesmo tempo que lançou um apelo às autoridades de governo para que transformem ‘a cultura de uma nação, envenenada pelo extremismo’.
Os funerais foram realizados no dia 13 de outubro, um dia após o assassinato, em Beni Suef, a cerca de 115 km al sul do Cairo. Personalidades da comunidade local, sacerdotes e numerosos fiéis participaram das exéquias.
Também a Igreja Católica egípcia participou do luto que se abateu mais uma vez sobre a minoria copta.
Em nota enviada à Agência Asianews, o porta-voz Padre Rafic Greiche expressa ‘dor’ e ‘proximidade’ pela morte ‘do mártir’, assegurando ‘a oração’ de toda a comunidade católica pela sua família ‘e pela paz’ no país.
Mohamed Sonbaty está sob custódia. As autoridades estão verificando eventuais ligações com grupos fundamentalistas ativos no Egito. No passado ele já havia agredido os próprios familiares e incendiado a casa onde moravam. Segundo declaração de alguns vizinhos - sob anonimato, por medo de represálias - ele seria um ‘conhecido radical’ islâmico.
Também o Grão Mufti do Egito, Xeique Shawki Allam, condenou o atentado, definindo-o como ‘terrorismo brutal’, que não faz distinção ‘entre militares, civis, ou entre um muçulmano e um cristão copta’.
Ele lança um apelo ao país, para que a população esteja unida diante da ameaça de ‘grupos que querem desestabilizar’.
Outro líder muçulmano, o pregador Xeique Samir Hashish, classifica os responsáveis por este e outros ataques como ‘não-muçulmanos’ e ‘infiéis’, que devem ser punidos ‘com severidade’.
Nos últimos meses a comunidade cristã egípcia foi alvo de uma série de ataques, como aquele contra um ônibus de peregrinos coptas em maio, que provocou a morte de dezenas de pessoas.
Desde dezembro de 2016, já chega quase a cem os membros da minoria religiosa copta, mortos em ataques terroristas.’

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domingo, 15 de outubro de 2017

Sinais de vida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo da Irmã Joana Sofia Carneiro,
Missionária Comboniana


‘Aqui em Amã (Jordânia), além das minhas aulas de árabe, ajudo alguns refugiados na prática do seu inglês. Graças a Deus existem espaços de diálogo ecumênico e inter-religioso onde realizamos atividades, como, por exemplo, a biblioteca organizada pelas irmãs seculares da associação espanhola Poveda.

Testemunhas de Jesus
A maioria dos refugiados que se encontram neste lugar vem do Iraque e da Síria. Eles tiveram de fugir da guerra, de maneira que a Jordânia é para eles um lugar de passagem até que consigam ter a oportunidade de partir para outro lugar onde possam viver em paz. O processo de espera pela autorização de um país que os recebe é muito lento, motivo pelo qual muitos deles permanecem aqui por vários anos. Na Jordânia os refugiados não estão autorizados a trabalhar e várias gerações ficam paradas. Os jovens não estudam por falta de meios econômicos, as propinas da universidade são muito elevadas. Não obstante todas estas situações difíceis, eles não desesperam, antes pelo contrário, são um verdadeiro testemunho de esperança em Jesus e sabem ser conhecidos, amados e protegidos pelo Bom Pastor que toma conta deles. Eles são os verdadeiros crentes. Isto é maravilhoso! É só ver a grande comunidade dos iraquianos cristãos a celebrar a Eucaristia aqui em Amã, todos os domingos à tarde. Eles cantam, rezam, estão em paz porque sabem que aqui não cairá nenhuma bomba que lhes pode destruir a casa.

Famílias de refugiados
Além das horas que fico na biblioteca vou visitar algumas famílias com a irmã Pierina.
A maioria das famílias são provenientes do Iraque, da Síria e também do Sudão. Lamentavelmente, as famílias provenientes da África são as mais pobres. Elas não têm direito ao estatuto de refugiados porque, oficialmente, no Sudão não há guerra, embora todo o mundo saiba que a situação do Sudão é uma das mais terríveis. A nossa memória é curta quando não vivemos estas situações na nossa própria carne. Há dias, fomos visitar uma família sudanesa, um casal jovem, com três gêmeos. O meu primeiro pensamento, confesso, foi de fria lógica humana. «Se não conseguem alimentar-se a eles próprios, que farão com três crianças?» Mas, depois, rezando, consegui perceber toda a força do nosso Deus que sempre tem respostas de vida em abundância para todos, apesar da guerra e da violência que são os frutos do nosso egoísmo
Esta maneira de agir do nosso Deus vejo-a encarnada na Irmã Pierina. As visitas que fazemos juntas parecem insignificantes e pequenas, a nossa ajuda simplesmente inútil, segundo os critérios humanos. Mas, são estes gestos, repletos de compaixão e de esperança, que fazem toda a diferença.
Através da nossa insignificância, Deus cuida destes irmãos vulneráveis. Acredito que só através da nossa intimidade com o Senhor seremos sinais de luz e de vida.
Por favor, continuem a rezar por nós e, sobretudo, por todos os que, neste mundo, mais precisam da luz de Jesus. E, por favor, se virem alguém chegar do estrangeiro, não lhe virem as costas! O nosso planeta está a passar por um momento muito difícil, milhões de pessoas são obrigadas a abandonar tudo por razões que as ultrapassam...Somos instrumentos de paz, de acolhimento e de reconciliação! Os pequenos gestos concretos de cada pessoa a favor de outros têm uma grande repercussão na escala mundial.’

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terça-feira, 10 de outubro de 2017

O poder que um momento incômodo de silêncio pode ter nos negócios e na vida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Lennox Morrison, 
jornalista (BBC Capital)


‘Da próxima vez que você encontrar alguém, pause a conversa e tente contar quanto tempo o silêncio dura.
Provavelmente, não vai passar de um ou dois segundos.
Até entre aqueles que usam a linguagem dos sinais, estudos mostram que, normalmente, não aguardamos nem uma fração de segundo para começarmos a nos comunicar novamente.
Mas, embora essa tendência talvez seja universal, nossas percepções de silêncio diferem substancialmente dependendo de nossa cultura - um detalhe crucial se você tiver de fazer negócios fora do seu país de origem.
Quem vem de um país de língua inglesa tende a demonstrar grande desconforto com longas pausas em uma discussão. Mesmo assim, saber a hora de se calar pode ser uma vantagem - desde fechar uma venda até negociar uma promoção, passando por apresentações e gestão de equipe.

Normas culturais
O que para uns pode ser considerado um silêncio constrangedor, outros veem como um momento valioso de reflexão e um sinal de respeito em relação ao que a última pessoa falou.
Pesquisas realizadas na Universidade de Groningen, na Holanda, em holandês e também em inglês, revelaram que quando a conversa é pausada por mais de quatro segundos, as pessoas começam a ficar desconfortáveis.
Em contrapartida, outro estudo feito com executivos constatou que os japoneses não se importavam em deixar de falar por até 8,2 segundos - quase o dobro do limite dos falantes de inglês.
No Japão, o poder do silêncio é reconhecido pelo conceito de haregei, pelo qual a melhor forma de se comunicar é ficar calado.
A cultura japonesa entende que, se você precisa das palavras, é porque você fracassou em entender o outro. Ou seja, você está usando as palavras como forma de solucionar um problema de comunicação’, diz Debora Tannen, professora de linguística da Universidade Georgetown, nos Estados Unidos.
Na mesma linha, os finlandeses, que prezam sua privacidade, introversão e a arte da escuta, também não se incomodam com o silêncio, diz Donal Carbaugh, professor de Comunicação da Universidade de Massachusetts Amhers.
Ninguém diz nada, mas todo mundo está pensando. Eles estão prestando atenção na conversa. A reflexão sobre o silêncio naquele ponto pode ser muito positiva’, explica.
Sendo assim, por que temos tanta dificuldade em lidar com longas pausas?
Nos Estados Unidos, a explicação pode vir do caldeirão de culturas que formou o país, diz Carbaugh. ‘Quando há pessoas de culturas tão diferentes vivendo no mesmo local, é difícil estabelecer um entendimento mútuo a menos que você fale. Existe, justificadamente, uma ansiedade que só é aliviada a partir do momento em que as pessoas interagem verbalmente para estabelecer um elo comum.
Em contrapartida, afirma ele, ‘quando há mais homogeneidade, talvez seja mais fácil ficar em silêncio. Por exemplo, entre seus amigos mais próximos e sua família, é mais fácil ficar em silêncio do que entre pessoas que você não conhece’.
Saber administrar silêncio pode se tornar uma ferramenta poderosa

Táticas
O fato de que temos dificuldade em lidar com o silêncio explica por que saber administrá-lo pode se tornar uma ferramenta poderosa.
O consultor de vendas Gavin Presman costuma fazer pausas logo depois de propor um negócio.
Ele diz ter aprendido a técnica quando soube que os médicos aguardavam cinco segundos antes de falar após seus pacientes terminarem seus relatos.
No mundo dos negócios, cinco segundos pode ser muito tempo, então eu me silencio por três segundos e o que acontece é impressionante’, conta Presman, diretor da Inspire, empresa britânica especializada em treinamento e desenvolvimento de pessoas.
Recentemente, um cliente em potencial disse a ele que achava tudo ‘muito caro e que não estava certo de que poderia pagar pelos seus serviços’.
Presman consentiu e, então, esperou. Dez segundos depois o cliente disse que via o valor do treinamento oferecido e que gostaria de fechar o negócio.
Às vezes, pensamos que o silêncio significa não dizer nada’, diz o especialista. ‘Mas, na verdade, permite às pessoas se aquietarem e refletirem um pouco mais profundamente’.
Katie Donovan defende a ideia de que ‘quem fala primeiro, perde’. No começo de sua carreira, ela foi entrevistada para um emprego na área de vendas e recebeu a proposta de trabalho de imediato. Quando o empregador falou sobre o salário, Donovan disse que entraria em contato com ele na semana seguinte e ficou em silêncio. A proposta foi aumentada. Ela, então, repetiu a tática. Finalmente, o empregador ofereceu uma terceira oferta, 20% maior do que a primeira. Ela aceitou.
Mais do que o conhecimento sobre o produto ou qualquer outra coisa, o silêncio é a técnica mais difícil para aprender’, assinala Donovan. ‘É contra os nossos instintos. Queremos, a todo momento, preencher os espaços vazios de uma conversa’, acrescenta.
Antes de esperar por uma negociação mais difícil, ela recomenda praticar com amigos e colegas. ‘Faça uma pergunta simples, como ‘O que você fez no fim de semana?’ E então cale a boca’.
Aprender a ficar em silêncio acaba se tornando uma ferramenta muito útil ao longo de sua vida, desde sair com os amigos até comprar uma casa’, destaca.

Quando falar
Mas existem momentos em que é necessário falar. O silêncio pode, algumas vezes, ser mal interpretado, diz Tannen.
Pesquisadores que analisaram uma série de julgamentos descobriram que os advogados aconselhavam seus clientes a pensarem antes de responderem e não falarem qualquer coisa que viesse à cabeça. Mas também perceberam que os jurados suspeitavam de quem fazia pausas longas e consideravam que o silêncio poderia ser uma forma de mentira, diz ela.
A intenção e o efeito do silêncio são diferentes’.
No ambiente de trabalho, pode acontecer de um chefe anunciar uma decisão e supor que, se estiverem insatisfeitos, os funcionários vão reclamar, explica ela.
Os funcionários, no entanto, podem achar que não vale a pena dizer nada, pois consideram que o chefe já formou sua opinião.
Essa é uma diferença muito perigosa’, diz ela.
Aprender a lidar com o silêncio é uma habilidade importante, diz Matthew MacLachlan, da empresa britânica Learnlight, que fornece treinamento em competências sociais e em linguagem, especialmente em ambientes multiculturais.
Os negociadores chineses entendem que os americanos não lidam bem com o silêncio e são treinados para ficarem quietos porque isso vai fazer com que os americanos se sintam desconfortáveis e possivelmente façam concessões sem que os chineses tenham de fazer absolutamente nada’, diz ele.
Então, qual é a melhor resposta? ‘Cale-se e espere. Não faça uma concessão ou ofereça um meio-termo só porque eles não estão falando. Se você tiver de falar alguma coisa, faça uma pergunta direta, como ‘Como você reagiria a essa oferta?’’.
Quando o silêncio perdurar por 45 segundos, você pode dizer : ‘Vamos voltar a esse assunto em um minuto. Enquanto isso, vamos prosseguir com a negociação’, aconselha.
Em apresentações, o silêncio pode ser mais efetivo do que um rompante dramático, acrescenta ele.
Antes de começar, olhe para a plateia e fique em silêncio por um momento porque isso mostra que você está em controle, que você sabe o que está fazendo e que você está confiante’.
Um exemplo clássico disse aconteceu quando o cofundador da Apple Steve Jobs lançou o primeiro iPhone, diz MacLachlan.
Ele fez pausas para que você não perdesse os pontos-chave. Como o silêncio nos deixa nervoso, nossa reação instintiva é de que devemos prestar mais atenção’.
Ao mesmo tempo, quando damos feedbacks para nossos funcionários, a pausa é importante - especialmente quando se trata dos negativos.
Se você não parar de falar, você não está estimulando seus funcionários a refletir sobre o que deu errado. Dê a essas pessoas um momento de silêncio para ir além da reação emocional e começar a pensar cognitivamente, processando a informação’, diz MacLachlan.
Para Carbaugh, o silêncio é, acima de tudo, um convite à autorreflexão.
O silêncio pode ser uma ferramenta poderosa para nos entendermos, entendermos os outros, aprimorar um entendimento mútuo e alcançarmos resultados mais produtivos que se apliquem a todas as esferas do nosso cotidiano’, conclui.’

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segunda-feira, 9 de outubro de 2017

Apostolado do Mar : restaurar dignidade dos marítimos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Encerrou-se, no dia 6 de outubro, o XXIV Congresso Mundial do Apostolado do Mar, realizado em Kaohsiung, Taiwan. Foram tratados, em intensas palestras, temas pertinentes ao pouco conhecido mundo dos pescadores. Os temas abordados privilegiaram os setores da pesca artesanal e industrial.
Realmente, a situação triste e injusta a que são submetidos os pescadores representa enormes desafios pastorais para a Igreja exigindo adaptações, criatividade e compromisso para socorrer as vítimas que não tem voz  e incluí-las na sociedade que, de um modo geral, ignora sua existência.
A missão da Igreja é restaurar a dignidade perdida de muitos pescadores e marítimos. É um trabalho que exige competência, dedicação e coragem por parte dos membros do Apostolado do Mar e agentes de pastoral.
 Por isso, os participantes propuseram algumas prioridades para os próximos anos. A primeira é desenvolver e aperfeiçoar as técnicas de visita à bordo dos navios e adquirir um bom conhecimento das leis, que regulam o trabalho dos pescadores e marítimos; a segunda, aperfeiçoar o sistema de comunicação entre capelães e centros Stella Maris, possibilitando uma ação mais eficiente em casos de escravidão, discriminação e injustiças; finalmente, destacando o trabalho evangelizador do Apostolado do Mar, usando o mesmo logo evidenciando sua missão.
Através do Apostolado do Mar a Igreja cuida da saúde dos seres humanos que buscam o sustento de suas famílias no mar, lagos e rios, deixando a natureza limpa e viva para as gerações futuras.’ 

Observação -> leia também  Apostolado do Mar e o Migrante das Águas

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domingo, 8 de outubro de 2017

Ainda existem anjos?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Mas, afinal o que são os anjos? Ou quem são os anjos?
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Dia 29 de setembro comemora-se o dia dos três Arcanjos: Miguel, Gabriel e Rafael. No dia 2 de outubro, o dia dos Anjos da Guarda.
Mas parece-me que quase ninguém se recorda dessas figuras, que são bíblicas. Lembrei-me da minha infância e juventude, quando éramos educados nas escolas católicas e ouvíamos tantas referências à presença dos anjos em nossa vida. Que saudade! Hoje, num mundo cada vez mais laicizado, mais preocupado com a busca da felicidade através da ciência, da lógica, da tecnologia, da monetarização, e até da hostilização às religiões e à crença no mundo espiritual, essa imagem dos anjos vai se desvanecendo, e as pessoas perdem uma relação extremamente valiosa para o seu dia a dia.
O curioso é que, se a relação dos crentes com as deidades se fazia, e ainda são feitas, numa condição de distanciamento temeroso, colocando Deus – seja com o nome que for – num trono infinitamente distante, a figura do anjo sempre teve a condição de amigo, de companheiro sempre próximo, sempre ao nosso lado. Vem-me à lembrança, a figura terna do anjo com roupas brancas e grandes asas abertas, com as mãos estendidas sobre crianças brincando à beira de precipícios, atravessando pontes frágeis, e ele sempre pronto a protegê-las.
Hoje, diante de situações adversas, logo se questiona onde andam os anjos. Mas a resposta é que eles estão ali, lado a lado com os que receberam para a sua guarda. Todavia, como guardar quem não os quer por perto, nem sequer acreditam que eles existem? A nenhum ser espiritual é permitido violentar a vontade, o livre arbítrio dos humanos. Esse dom precioso foi dado pelo Criador a todas as suas criaturas, para preservar a sua liberdade de decisão, a sua dignidade. Contudo, é preciso ter-se em mente que o livre arbítrio não é algo irresponsável. Exatamente por ter sido dado em respeito à dignidade da criatura, ele exige que seu uso seja também de total responsabilidade de quem o tem. Não é possível utilizar o livre arbítrio, e simultaneamente transferir a responsabilidade pelos próprios atos e suas consequências a outrem, às vezes, e absurdamente, até para a própria vítima. Afinal, aqueles que as vitimam, não acreditando senão na eficácia da sua violência, e na sua impunidade, recusam qualquer ação inspiradora dos seus anjos, efetivando o seu propósito destruidor. E daí surge uma das graves consequências de nossas ligações interpessoais, ou seja, o mal feito por um, propaga-se como ondas sonoras, atingindo a outros, mesmo que nada tenham a ver com aquelas más ações. Exemplo evidente é o atropelamento de um transeunte por um motorista embriagado. Nesse mundo de tantas injustiças, compreende-se o questionamento : se existem anjos, onde estão os que nos deveriam guardar? Por que não nos livram dos males? A resposta não é tão simples. Anjos não têm atuação direta, mas agem por ações indiretas que podem, se não evitar totalmente o mal, pelo menos atenuá-lo de maneira significativa. Exemplos são vistos a todo momento, contudo para quem não crê, ou não quer crer, de nada adiantam. Sempre será encontrada uma explicação racional para tudo. Sempre se dirá que aquilo foi coincidência, foi obra do acaso. Contudo, para os que têm a mente aberta, será possível enxergar uma ação extranatural que produziu um resultado benéfico. Mas, como diz o velho ditado, o pior cego é o que não quer ver.
Mas, afinal o que são os anjos? Ou quem são os anjos?
A palavra anjo vem do grego ‘angelos’ que significa mensageiro, enviado. É portanto uma palavra que designa a função e não a personalização. A existência e a ação dos anjos são estudadas numa ciência denominada ‘angelologia’. Eles aparecem pela primeira vez na Bíblia, no seu primeiro livro, ou seja, no Gênesis, quando aos Querubins é dada a função de guardar a entrada do Paraíso. Mas não é só na Bíblia que aparecem referência aos anjos. Em textos anteriores à Abraão, e fora do judaísmo, existem várias citações bem claras referindo-se a esses seres espirituais. Na carta de S. Paulo aos Colossenses, ele afirma a existência dos anjos e faz referência à sua hierarquia : Tronos, Dominações, Principados e Potestades. Dionísio, em seu tratado ‘De Coelesti hierarchia’, traduzido no século IX e aceito pelo magistério da Igreja, descreve a hierarquia angélica completa, iniciando pelos mais elevados até à sua base : Serafins, Querubins, Tronos, Dominações, Virtudes, Potestades, Principados, Arcanjos e Anjos. O curioso é que a menor hierarquia – Anjos – é que dá o nome comum a todos os demais. No Concílio Lateranense (1215) a existência dos anjos é claramente definida. Diversos Teólogos, especialmente Tomás de Aquino, repetidamente afirmam a existência desses seres espirituais. Pio XII, em sua encíclica Humani Generis, de 1950, ressalta a condição dos anjos de criaturas pessoais. João XXIII o mais progressista dos Papas, referia-se constantemente à ajuda do seu Anjo da Guarda. Fora da Igreja Católica, Karl Barth (1886-1968), John Wesley, fundador do Metodismo, e o conhecido pregador Billy Graham referiam-se com frequência aos anjos e sua realidade.
Muito poderíamos falar sobre os anjos, mas nossa intenção nesse artigo é apenas despertar a curiosidade dos leitores para uma realidade espiritual tão importante em nossas vidas, mas que um excessivo racionalismo, mesmo em membros da hierarquia eclesial, desdenha ou até nega o que o magistério da Igreja afirma, por achá-los ‘coisas de crianças’. É bom recordar que o próprio Jesus disse : ‘Quem não se fizer simples como as crianças, não entrará no reino dos Céus’. Quem não crê, priva-se de maravilhoso benefício.’

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sexta-feira, 6 de outubro de 2017

Se Saint Louis é o 'novo Selma' qual o papel dos católicos na reconciliação racial?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Frente: Irmã Antona Ebo e Irmã Anne Christopher marcham em Selma. Médio: o arcebispo Robert J. Carlson fala em um serviço de oração inter-religioso depois que o agente Jason Stockley foi absolvido. Atrás: jornais locais cobrem a homilia de Heithaus.
Frente: Irmã Antona Ebo e Irmã Anne Christopher marcham em Selma.
Meio: o arcebispo Robert J. Carlson fala em um serviço de oração
inter-religioso depois que o agente Jason Stockley foi absolvido.
Atrás: jornais locais cobrem a homilia de Heithaus.

*Artigo de Colleen Dulle


‘O padre jesuíta Chris Collins dirigiu-se apressadamente para a faculdade de direito da Universidade de St. Louis quando ouviu que um veredito seria divulgado no dia 15 de setembro referente ao julgamento do assassinato de Jason Stockley, o policial branco que matou Anthony Lamar Smith, um jovem negro de 24 anos, em 2011.
O julgamento foi controverso : Stockley foi acusado de assassinato premeditado depois de ser gravado dizendo que ele iria matar ‘esse filho da p***’ enquanto perseguia o Smith no seu carro pelo norte de St. Louis. Os advogados no processo também argumentaram que Stockley tinha plantado a arma que foi recuperada do carro do jovem Smith : especialistas descobriram o DNA do Stockley na arma, mas não de Smith.
Apesar desta evidência, Stockley foi absolvido, e os manifestantes imediatamente começaram a protestar frente à decisão na rua entre o tribunal e a escola de direito dos jesuítas.
Não importava qual fosse o veredito, sabíamos que haveria protestos’, disse o padre Collins à revista América. Ele sabia que o clero católico não era visto normalmente nos protestos e queria estar lá como ‘uma presença pastoral’.
Na calçada fora da faculdade de direito, o padre Collins encontrou-se com um ministro que conhecia e alguns outros membros do clero de várias denominações religiosas que se reuniram em torno do acontecido. Eles começaram a orar juntos e, enquanto oravam, alguém puxou o grupo para a rua.
Padre Collins disse que um dos ministros que iniciou a oração, uma negra, cujo nome não conseguiu lembrar, segurou-o firmemente. ‘Ela não me soltaria, um padre católico, branco e lá’, disse padre Collins. ‘Isso foi potente para mim... De alguma forma, isso pareceu um gesto muito significativo’.
Isto é significativo porque em St. Louis as comunidades afro-americanas e brancas permanecem completamente divididas. Os mapas demográficos da cidade mostram o que foi apelidado de ‘A Divisão Delmar’ : grande parte dos pretos de St. Louis vivem ao norte de Delmar Boulevard e grande parte dos brancos de St. Louis vivem ao sul.
Além de simplesmente superar essa divisão física, quando o padre Collins apoiou a ministra negra, representou o que os católicos brancos de St. Louis historicamente fizeram melhor na luta pela justiça racial : apoiar e trabalhar com seus colegas cristãos negros.

Integração pioneira
Em fevereiro de 1944, St. Louis era uma cidade legalmente segregada. Crianças pretas e brancas iam para diferentes escolas, e o incentivo para empregadores brancos como os do Sudoeste de Bell para contratar afro-americanos estava apenas começando a ganhar força.
A Universidade St. Louis permaneceu segregada. O presidente da escola, o padre Patrick Holloran e o arcebispo (mais tarde Cardeal), John J. Glennon, se opuseram firmemente à integração.
Um dos jesuítas da universidade, o padre Claude Heithaus, viu a segregação da universidade como hipócrita e injusta. Quando descobriu que celebraria a missa estudantil das 8:45 da manhã em St. Francis Xavier College Church em 11 de fevereiro de 1944, o padre Heithaus preparou uma homilia ardente denunciando o preconceito racial e pedindo a integração da universidade.
É um fato surpreendente e bastante desconcertante que, no que diz respeito à justiça para os negros, os muçulmanos e os ateus são mais cristãos do que muitos cristãos’, começa o sermão. ‘Os seguidores de Maomé e Lenin não fazem distinção de cor, mas para alguns seguidores de Cristo, a cor da pele de um homem faz toda a diferença no mundo’.
O padre Heithaus estabeleceu contrastes entre a aprovação do Papa Pio XII dos bispos negros e a desaprovação dos seus paroquianos sobre um organista negro na igreja e entre a alegria de Deus quando qualquer uma das raças recebe a comunhão e o desdém de sua comunidade ajoelhada ao lado de um afro-americano na fila de comunhão.
O padre Heithaus continuou : ‘A Universidade de St. Louis admite protestantes e judeus, mórmons e muçulmanos, budistas e brâmanes, pagãos e ateus, sem sequer olhar para a sua aparência. Você quer que batamos as nossas portas na cara dos católicos porque a sua aparência é escura ou preta?
O padre Heithaus convocou os alunos para se defender e fazer um ato de reparação pelo racismo, e um relatório de notícias daquele dia diz ‘até os bancos se levantaram’. Os alunos pediram desculpas ‘por todos os erros que os homens brancos fizeram com [Deus] às crianças pretas’ e ‘resolveram nunca mais ter qualquer parte neles, e fazer tudo em [seu] poder para evitá-los’.
O arcebispo Glennon repreendeu o padre Heithaus por sua homilia, e o padre Holloran proibiu-o de falar publicamente sobre temas de raça. Ainda assim, poucos meses depois que o padre Heithaus partilhou sua homilia, a universidade tornou-se a primeira faculdade historicamente branca em um antigo estado escravo em admitir estudantes pretos.
Dois anos depois, em 1947, o arcebispo (depois cardeal), Joseph E. Ritter, anunciou que integraria todas as escolas católicas na arquidiocese, uma causa que o padre Heithaus havia defendido silenciosamente depois de ser censurado. Quando alguns católicos brancos na diocese apelaram a integração, esperando pará-la, o Arcebispo Ritter emitiu uma carta para ser lida em voz alta em cada Missa na diocese, ameaçando excomungar qualquer católico que se opusesse a ele. As escolas foram integradas naquele ano, oito anos antes das escolas públicas do país se integrarem seguindo a decisão da Câmara de Educação do Tribunal Supremo.

St. Louis manda irmãs para Selma
Padre Collins, o jesuíta que rezou nas ruas depois do veredicto de Stockley, anunciou que um ministro afro-americano recentemente lhe disse que a marcha dos direitos civis de Selma1 para Montgomery em 1965 não teria sido tão eficaz em chamar a atenção para a discriminação dos eleitores em Alabama, se não fosse pela presença de freiras católicas.
A Irmã Anne Christopher, então Irmã de Loretto morando no centro da cidade de St. Louis, ficou horrorizada com a violência que viu na cobertura de notícias do ‘Domingo sangrento’, quando tropas estatais atacaram violentamente manifestantes pacíficos atravessando a Ponte Edmund Pettus. Quando ela ouviu o apelo do Reverendo Dr. Martin Luther King Jr. para o clero marchar de Selma para Montgomery, pediu permissão para ir. Três dias depois, subiu em um avião para Selma com um grupo de freiras de St. Louis. Antona Ebo, irmã franciscana de Maria, era a única irmã negra na delegação.
‘Descobriu-se que o hábito era o que chamava a atenção de todos, muito rapidamente, porque ninguém tinha visto as freiras fazendo nada assim antes. Eu não tinha percebido que estávamos nos envolvendo em algo histérico e histórico’, disse a irmã Ebo com uma risada. Aos 94 anos, ela permanece tão envolvida quanto pode nos esforços de direitos civis na cidade.
Embora seu impacto exato possa ser impossível de avaliar, a presença das irmãs na linha de frente em Selma chocou e chateou as pessoas, mesmo membros de suas próprias comunidades religiosas, que achavam inapropriado que freiras se envolvessem em tal ativismo.
Eu recebi muitas cartas, como tenho certeza de que todas nós fizemos, dizendo que as freiras não deveriam participar dessas coisas’, disse a irmã Anne Christopher, agora Therese Stawowy, em entrevista à Universidade Webster. ‘Eu não posso contar todas as palavras dessas cartas, mas algumas delas ainda as tenho hoje. Elas me sacudiram. Ficamos perturbadas com as cartas que recebemos e com o fato de que algumas vezes nos pediram para não falar nos eventos depois que fomos convidadas’.
Enquanto as marchas conseguiram obter o apoio à Lei de Direitos de Votação, que foi aprovada no final desse ano, a luta pela justiça racial em St. Louis continua por questões como a violência policial, o encarceramento em massa e a segregação geográfica que é um legado da discriminação habitacional.

O Novo Selma
Em setembro, no primeiro protesto depois de Jason Stockley (que frequentou a Althoff Catholic High School) ser absolvido, o ativista local Tory Russell disse à multidão : ‘St. Louis é o novo Selma. Deixe-me dizer isso novamente : St. Louis é o novo Selma
Para a comunidade católica em St. Louis, os paralelos entre sua cidade e Selma também foram evidentes em 2014. Duas semanas depois, Michael Brown, um adolescente preto desarmado, foi baleado pelo oficial de polícia branco Darren Wilson em Ferguson, Missouri, em um subúrbio do Norte de St. Louis com uma maioria de negros. Neste contexto, o arcebispo Robert Carlson decidiu restabelecer a Comissão de Direitos Humanos da Arquidiocese, o mesmo grupo que organizou a viagem das irmãs a Selma em 1965.
Hoje, a Igreja Católica está novamente em uma posição única com a possibilidade de encorajar esforços de justiça social em St. Louis. É a maior denominação religiosa na área e funcionam com aproximadamente 30 escolas onde seus membros são principalmente brancos. Todavia, após o veredicto de Stockley, a Convenção Batista Missionária do Estado de Missouri, em grande parte, negra, se juntou ao arcebispo Carlson em apoio.
O alcance deles é muito maior’, disse o Reverendo Linden Bowie, presidente da Convenção Batista, ao site National Catholic Reporter.
Em resposta ao pedido do Reverendo Bowie, a arquidiocese organizou um encontro de oração inter-religioso realizado no centro de Kiener Plaza, a poucos passos do Tribunal de Justiça antigo, onde Dred Scott lutou por sua liberdade da escravidão, pedido que foi negado em Dred Scott vs. Sandford, caso da Suprema Corte de 1857.
No encontro inter-religioso, o Padre Ron Mercier, chefe da Província Centro-Sul dos jesuítas, citou o papa Paulo VI :
Aqueles que levantaram a voz em protesto desde o veredito da última sexta-feira, lembram-nos que, para muitas pessoas nesta cidade que amamos, a justiça continua sendo uma realidade inalcançada. O pecado do racismo e a injustiça que ele gera, nos priva de toda a capacidade de estar em casa e apreciar a paz. Como os manifestantes nos lembraram, aqueles que ainda estão sobrecarregados pelo legado da escravidão conhecem de forma profunda e visceral o que é ser estrangeiros em sua própria cidade, vendo que suas vidas importam pouco. Sim, precisamos orar hoje pelo dom da paz, um presente que Deus anseia nos dar, mas também devemos ouvir o convite de Deus para construir a justiça.
Os católicos de St. Louis, liderados de forma mais visível por estruturas oficiais como a Comissão de Paz e Justiça, que foi estabelecida após Ferguson, estão trabalhando silenciosamente para alcançar a justiça.
Após o início da agitação em Ferguson, a arquidiocese se ativou nos esforços de reconciliação racial, realizando uma série de missas e encontros de oração inter-religiosos no condado do Norte e coletando doações para serviços sociais na área.
Os jesuítas continuaram seus esforços de justiça social, operando através de uma escola primária e uma paróquia no norte de St. Louis. Eles também estão tomando medidas para superar seu passado de escravidão. Em 2016, a Universidade de St. Louis renomeou um prédio com o nome de uma das pessoas escravizadas e vendidas pelos jesuítas. A universidade tornou mais fácil para os descendentes desses escravos participarem da universidade. A faculdade de direito é focada no encarceramento em massa e estabeleceu um programa de graduação associada para presos e trabalhadores prisionais. Também está planejando uma feira de carreiras para infratores da lei.
O padre Chris Collins, que trabalha na Comissão de Justiça e Paz, disse que, com algumas empresas em St. Louis que se encontram enfrentando a falta de mão-de-obra, o aumento das oportunidades de trabalho para os ex-presidiários poderia ser uma solução vantajosa para todos.
Pessoas de diferentes cores políticas podem concordar em muitas dessas coisas’, disse padre Collins. ‘Eu tenho esperança’.
Ele também vê potencial no trabalho da arquidiocese para a reconciliação racial com a polícia da cidade e do condado. Muitos dos oficiais, disse, são católicos. Ele perguntou : ‘Como a mediação dentro da comunidade católica pode desempenhar um papel na tentativa de encontrar um terreno comum para trabalhar na reparação das relações entre a comunidade afro-americana e a polícia?
Os católicos brancos de St. Louis aprenderam ao longo da história que desafiar uns aos outros e buscar um terreno comum com grupos marginalizados são as duas estratégias mais eficazes para alcançar a justiça.
O padre Heithaus, o cardeal Ritter e as irmãs desafiaram o racismo de suas comunidades, mesmo que isso significasse enfrentar o ridículo. Eles construíram pontes juntando católicos brancos e negros nas salas de aula da universidade e marchando com os líderes protestantes negros das marchas dos direitos civis no Estado de Alabama.
As divisões raciais da cidade persistem hoje. Se St. Louis é o novo Selma, então os católicos brancos sabem exatamente o que precisam fazer : Desafiar-se uns aos outros e trabalhar lado a lado com seus irmãos e irmãs pretos para alcançar a justiça e, ao fazê-lo, a paz.’

[1] Selma é uma cidade norte-americana que representa particularmente o movimento social em busca de igualdade de direitos para a população afro americana liderado pelo pastor Martin Luther King Jr., através de protestos e marchas da cidade de Selma no interior do Estado de Alabama, até a capital, a cidade Montgomery.

Fonte :


quarta-feira, 4 de outubro de 2017

Por uma teologia atenta

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Um dos riscos dos cristãos é trabalhar com sujeitos etéreos, que só existem no campo do imaginário, sem se envolver com os problemas reais da comunidade em que se estão inseridos.
*Artigo de Fabrício Veliq,
protestante, é mestre e doutorando em
teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE),
doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica,
formado em matemática e graduando em filosofia pela UFMG
  

‘Que hoje se viva dentro de uma sociedade individualista e que se preocupa extremamente consigo mesma é um dado que, provavelmente, a maioria das pessoas irá concordar. Essa forma de viver é observável em diversas esferas do cotidiano, desde as relações familiares, passando pelas relações de trabalho até chegar às relações dentro das igrejas que se frequentam todos os domingos.
 Uma das características dessa sociedade individualista é a falta de atenção para com aqueles que estão mais próximos e, disso, a comunidade cristã, obviamente, também não está isenta. Muitas vezes, essa comunidade, nas diversas preocupações, algumas até mesmo legítimas, a respeito dos congressos a se realizar, dos encontros de jovens a se organizar, das atividades administrativas a se fazer e dos cultos a se preparar, se esquece do principal que é a atenção que deve ser dada àqueles que estão organizando essas coisas, bem como àqueles que são o alvo de todos esses esforços.
 Nesse sentido, a ânsia de se ter tudo perfeito acaba desviando o olhar para aquilo que é mais importante, ou seja, o relacionamento pessoal e de amor que deve se fazer presente no meio da comunidade.
 Os teólogos e teólogas, muitas vezes, também seguem essa mesma dinâmica. Em seus discursos a respeito do se importar com os outros, do olhar para o necessitado, assumindo sua causa e lutando em seu favor, diversas vezes se esquecem de que esse necessitado está mais perto do que se imagina, estando, não raras às vezes, dentro da própria casa, sendo um filho ou filha que sente a ausência dos pais porque esses nunca estão presentes, pois estão organizando coisas em suas igrejas, ou uma mãe e um pai que precisam de cuidados especiais devido à idade, ou ainda um irmão ou irmã que está em crise devido a diversos fatores, dentre tantos outros exemplos que se poderiam citar.
  Nesse sentido, é importante que os representantes desse discurso teológico de auxílio aos necessitados estejam atentos ao lugar onde eles se encontram no dia a dia da comunidade. Isso, claramente, não quer dizer olhar somente para suas próprias relações pessoais e familiares, esquecendo-se dos demais, mas, justamente, ter a atenção de que, muitas vezes, o necessitado do qual tanto se fala está clamando ao seu lado.
 Um dos riscos dos cristãos é trabalhar com sujeitos etéreos, que só existem no campo do imaginário, sem se envolver com os problemas reais da comunidade em que se estão inseridos. Quando isso acontece, é comum que as respostas dadas aos problemas das pessoas e da sociedade sejam rápidas e fáceis, uma vez que sujeitos ideais têm também soluções ideais. Contudo, uma teologia assim não responde às questões da sociedade. Somente se entrando na realidade, atento a ela em suas diversas nuanças é que é possível propor respostas para questões concretas, que afligem realmente os envolvidos nelas.
 Diante disso, é urgente que se desenvolva uma teologia que se mostre atenta e se envolva com os problemas da comunidade, sejam os de perto, sejam os de longe, ouvindo os necessitados e agindo concretamente para os auxiliarem em suas questões, trazendo com isso, a boa nova de que Deus está atento à humanidade e se importa com ela.’

Fonte :