segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

Como resgatar a esperança?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

“E onde está Deus em tudo isto?”
*Artigo de Lev Chaim
jornalista e colunista


‘Ao assistir às discussões nos programas da TV holandesa, sobre como criar uma sociedade mais justa, mais amorosa e mais compreensiva, um pensamento estalou em minha mente : a conciliação com os outros só acontece quando você concilia consigo próprio. Isto me veio à cabeça e não me recordo ter lido em algum lugar. Provavelmente foi o que senti na hora quando assistia aos programas.
Ao deglutir mais esta frase, uma coisa ficou óbvia : quando você está bem consigo próprio, você é mais agradável e mais tolerante para com os outros. Um dos presentes à mesa de discussões, escritor e colunista de um jornal holandês, Bas Heijne, disse que ficar recordando o passado e querer que tudo seja como antes é perda de tempo, é saudosismo que não leva a nada. Segundo ele, temos que pensar hoje como queremos construir o nosso futuro.
Com tudo em minha mente, lembrei-me do livro que leio e releio de vez em quando, ‘O jogo dos Olhos’, do Nobel de Literatura, Elias Canetti. Trata-se da parte de sua autobiografia que vai de 1931 a 1937, em Viena, Áustria, durante a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha. Ali, Canetti conta que os personagens de suas histórias foram influenciados pelo escritor russo Nikolai Gogol :
Tudo a nossa volta é assustador. Não existe mais uma língua comum. Um não entende o outro. Acho que ninguém quer entender o outro.’ Ai, Canetti complementou com um comentário dirigido ao autor Herman Broch : ‘Impressionou-me bastante quando citou em seu livro que os homens estejam encerrados dentro de sistemas de valores diversos, que não seja possível o entendimento entre eles.’
Nos tempos de Canetti, o caos reinante propiciou a chegada de Hitler ao poder, o que sem dúvida era assustador para os que tinham consciência deste absoluto perigo máximo para o mundo, como ficou provado depois. Mas, ai eu me pergunto : qual o inimigo número ‘um’ de uma sociedade mais tolerante? Seria o islamismo radical? O consumismo desenfreado? O aquecimento do planeta? A extrema-direita que pipoca ali e aqui? As consequências das decisões impensadas de Donald Trump? O amor excessivo ao poder e ao dinheiro? O excesso de tecnologia na vida das pessoas de hoje que não têm mais tempo para admirar a natureza?
Sobre este último tema, o autor e antigo político holandês, Jan Terlouw, disse que o homem é que tem que direcionar a tecnologia e não esta ter o controle do homem. Terlouw disse ainda que hoje em dia são poucos aqueles que andam e admiram a natureza, que olham as pequenas coisas deste mundo, as pequenas flores de cada estação do ano. Além do que, complementou ele, o contato virtual está, em muitos casos, substituindo o contato humano. ‘Os jovens precisam ser alertados para o fato’, disse ele enfaticamente.
Se este autor tem a resposta para a melhor forma de se buscar a efetivação de uma sociedade mais justa, mais humana, eu não sei com certeza, mas eu me simpatizo extremamente com suas palavras. Não se pode querer tudo, a todo tempo e a toda hora. Algumas coisas têm que ser desejadas e ficarem na categoria de utopia.
Tal como disse Canetti, ao mencionar o livro de Insel Buchner, o preferido de sua esposa Veza : ‘É necessário que existam coisas que sejam inatingíveis; mas não devemos permitir que o inatingível nos esmague’.  Estas palavras e este livro foram dados a Canetti por Veza, sua esposa, como um conselho para aquele que ela amava muito e queria ver triunfar no mundo das letras, sem se sentir esmagado por outras obras primas.
Nesta salada de pensamentos e assuntos, uma coisa ficou clara : tanto Canetti e seus companheiros estavam na busca de uma explicação para o caos reinante na sociedade de então e essas discussões continuam valendo para o presente momento, com outros ingredientes entrelaçados. Após dizer tudo isto, encerro com o seguinte : o mundo necessita de outras Vezas como a de Canetti e outros autores como Jan Terlouw, o escritor holandês, para tentar resgatar a esperança na alma do homem.
Ao apresentar este texto à minha irmã, ela perguntou assombrada : ‘E onde está Deus em tudo isto?’ O primeiro pensamento que veio-me à mente eu soltei : ‘Em todos os lugares, mas ele fica mais visível quando encontramos almas brilhantes que servem para iluminar e inspirar o caminho do homem’. E o mundo de hoje está mesmo necessitado de boas almas, pensei baixinho.’


Fonte :


sábado, 16 de dezembro de 2017

História do Domingo Gaudete

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


Resultado de imagem para advent + third sunday + gaudete 
*Artigo do Padre Mauro Sérgio da Silva Izabel, EP


Advento : significado e origem
‘Receber uma visita é uma arte que uma dona de casa exercita com freqüência. E quando o visitante é ilustre, os preparativos são mais exigentes. Imagine o leitor que numa Missa de domingo seu pároco anunciasse a visita pastoral do bispo diocesano, acrescida de uma particularidade : um dos paroquianos seria escolhido à sorte para receber o prelado em sua casa, para almoçar, após a Missa.
Certamente, durante alguns dias, tudo no lar da família eleita se voltaria para a preparação de tão honrosa visita. A seleção do menu, para o almoço, o que melhorar na decoração do lar, que roupas usar nessa ocasião única. Na véspera, uma arrumação geral na casa seria de praxe, de modo a ficar tudo eximiamente ordenado, na expectativa do grande dia.
Essa preparação que normalmente se faz, na vida social, para receber um visitante de importância, também é conveniente fazer-se no campo sobrenatural. É o que ocorre, no ciclo litúrgico, em relação às grandes festividades, como por exemplo o Natal. A Santa Igreja, em sua sabedoria multissecular, instituiu um período de preparação, com a finalidade de compenetrar todas as almas cristãs da importância desse acontecimento e proporcionar-lhes os meios de se purificarem para celebrar essa solenidade dignamente.
Esse período é chamado de Advento.

Significado do termo
Advento — adventus, em latim — significa vinda, chegada. É uma palavra de origem profana que designava a vinda anual da divindade pagã, ao templo, para visitar seus adoradores. Acreditava-se que o deus cuja estátua era ali cultuada permanecia em meio a eles durante a solenidade. Na linguagem corrente, significava também a primeira visita oficial de um personagem importante, ao assumir um alto cargo. Assim, umas moedas de Corinto perpetuam a lembrança do adventus augusti, e um cronista da época qualifica de adventus divi o dia da chegada do Imperador Constantino. Nas obras cristãs dos primeiros tempos da Igreja, especialmente na Vulgata, adventus se transformou no termo clássico para designar a vinda de Cristo à terra, ou seja, a Encarnação, inaugurando a era messiânica e, depois, sua vinda gloriosa no fim dos tempos.

Surgimento do Advento cristão
Os primeiros traços da existência de um período de preparação para o Natal aparecem no século V, quando São Perpétuo, Bispo de Tours, estabeleceu um jejum de três dias, antes do nascimento do Senhor. É também do final desse século a ‘Quaresma de São Martinho’, que consistia num jejum de 40 dias, começando no dia seguinte à festa de São Martinho.
São Gregório Magno (590-604) foi o primeiro papa a redigir um ofício para o Advento, e o Sacramentário Gregoriano é o mais antigo em prover missas próprias para os domingos desse tempo litúrgico.
No século IX, a duração do Advento reduziu-se a quatro semanas, como se lê numa carta do Papa São Nicolau I (858-867) aos búlgaros. E no século XII o jejum havia sido já substituído por uma simples abstinência.
Apesar do caráter penitencial do jejum ou abstinência, a intenção dos papas, na alta Idade Média, era produzir nos fiéis uma grande expectativa pela vinda do Salvador, orientando-os para o seu retorno glorioso no fim dos tempos. Daí o fato de tantos mosaicos representarem vazio o trono do Cristo Pantocrator. O velho vocábulo pagão adventus se entende também no sentido bíblico e escatológico de ‘parusia’.

O Advento nas Igrejas do Oriente
Nos diversos ritos orientais, o ciclo de preparação para o grande dia do nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo formou-se com uma característica acentuadamente ascética, sem abranger toda a amplitude de espera messiânica que caracteriza o Advento na liturgia romana.
Na liturgia bizantina destaca-se, no domingo anterior ao Natal, a comemoração de todos os patriarcas, desde Adão até José, esposo da Santíssima Virgem Maria. No rito siríaco, as semanas que precedem o Natal chamam-se ‘semanas das anunciações’. Elas evocam o anúncio feito a Zacarias, a Anunciação do Anjo a Maria, seguida da Visitação, o nascimento de João Batista e o anúncio a José.

O Advento na Igreja Latina
É na liturgia romana que o Advento toma o seu sentido mais amplo.
Muito diferente do menino pobre e indefeso da gruta de Belém, nos aparece Cristo, no primeiro domingo, cheio de glória e esplendor, poder e majestade, rodeado de seus Anjos, para julgar os vivos e os mortos e proclamar o seu Reino eterno, após os acontecimentos que antecederão esse triunfo : ‘Haverá sinais no Sol, na Lua e nas estrelas; e, na Terra, angústia entre as nações aterradas com o bramido e a agitação do mar’ (Lc 21, 25).
Vigiai, pois, em todo o tempo e orai, a fim de que vos torneis dignos de escapar a todos estes males que hão de acontecer, e de vos apresentar de pé diante do Filho do Homem’ (Lc 21, 36). É a recomendação do Salvador.
Como ficar de pé diante do Filho do Homem? A nós cabe corar de vergonha, como diz a Escritura. A Igreja assim nos convida à penitência e à conversão e nos coloca, no segundo domingo, diante da grandiosa figura de São João Batista, cuja mensagem ajuda a ressaltar o caráter penitencial do Advento.
Com a alegria de quem se sente perdoado, o terceiro domingo se inicia com a seguinte proclamação : ‘Alegrai-vos sempre no Senhor. De novo eu vos digo : alegrai-vos! O Senhor está perto’. É o domingo Gaudete. Estando já próxima a chegada do Homem-Deus, a Igreja pede que ‘a bondade do Senhor seja conhecida de todos os homens’. Os paramentos são cor-de-rosa.
No quarto domingo, Maria, a estrela da manhã, anuncia a chegada do verdadeiro Sol de Justiça, para iluminar todos os homens. Quem, melhor do que Ela, para nos conduzir a Jesus? A Santíssima Virgem, nossa doce advogada, reconcilia os pecadores com Deus, ameniza nossas dores e santifica nossas alegrias. É Maria a mais sublime preparação para o Natal.
Com esse tempo de preparação, quer a Igreja ensinar-nos que a vida neste vale de lágrimas é um imenso advento e, se vivermos bem, isto é, de acordo com a Lei de Deus, Jesus Cristo será nossa recompensa e nos reservará no Céu um belo lugar, como está escrito : ‘Coisas que os olhos não viram, nem os ouvidos ouviram, nem o coração humano imaginou, tais são os bens que Deus tem preparado para aqueles que O amam’ (1Cor 2, 9).’

Fonte :


sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

Advento de alianças

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Advento é tempo de preparação para o Natal, quando todas as pessoas são especialmente chamadas a reconhecer e a vivenciar a centralidade de Jesus Cristo - o Salvador. Cristo é a razão para se viver um Natal feliz e abençoado, como rezam os cartões e as mensagens natalinas. Trata-se do sentido das confraternizações, motivo para uma adequada qualificação que possibilite a vivência autêntica do Natal. Por isso mesmo, qualificar-se para celebrar o nascimento do Menino Jesus deve ser compromisso pessoal, familiar, vivido no ambiente de trabalho, na comunidade de fé e em todos os outros contextos possíveis. E essa adequada preparação vai muito além do compromisso de ir às compras, enfeitar as casas ou divertir-se. Significa compreender, ao proclamar a Palavra de Deus, que este é o tempo do Advento de alianças.
Na solidão, ninguém avança. As alianças são imprescindíveis. Programas e projetos dependem de parcerias, do engajamento de pessoas. Assim, percebe-se uma urgência : a necessidade de se derrubar os obstáculos que atrapalham as participações em iniciativas orientadas para o bem. É ilusório pensar que a força está no dinheiro, que se esvai, acaba. Muitas vezes, o dinheiro deixa sem alicerce quem fundamenta a própria vida no compromisso de acumular bens. Afinal, quem adota essa postura cultiva jeitos e hábitos de viver que, frequentemente, agridem o meio ambiente e desrespeitam os que estão na penúria, pobres que vivem nas ruas, sem cuidados básicos, morrendo de fome.  Ilusão também é acreditar que as alianças dependem de poderes conquistados – a partir de títulos ou de lugares que se ocupa no organograma de instituições. Quem exerce o poder o faz dentro de um contexto temporal passageiro.
Infelizmente, consolidou-se um entendimento torto a respeito de alianças, relacionando-as ao conchavo, à artimanha para alcançar, quase sempre ilicitamente, determinadas conquistas pessoais. Para essa finalidade, não raramente legitima-se o que é imoral, afrontam-se valores inegociáveis e o bem comum. Assim são validados desmandos e destroem-se os bens que pertencem a todos. O antídoto capaz de corrigir inadequados modos de se buscar alianças está no paradigma deste tempo, o Advento. Oportunidade para compreender a centralidade de Cristo e, consequentemente, viver e reconhecer no Natal a proposta de aliança que o Salvador do mundo apresenta à humanidade. Compreendida essa proposta, todos são convocados a engajar-se para efetivá-la, consolidando-a como paradigma de todas as alianças.
A autêntica e nova aliança é selada pela encarnação do Verbo, Jesus Cristo, o Filho de Deus, salvador e redentor, consolidada na radicalidade da oferta de sua vida, no ápice de sua crucificação, morte e ressurreição. Diante do que ensina Cristo, cada pessoa deve compreender-se como servidor da vida e de todos os irmãos, particularmente dos mais pobres. No modelo da aliança de Cristo está o sentido que permite compreender a vida como dom. Nesse contexto, todo interesse mesquinho e espúrio é descartado. Alcança-se uma liberdade interior ante o dinheiro e o poder, para fazer valer sempre e unicamente a verdade e o bem de todos. A aliança selada a partir de Jesus tem força para transformar inteligências e corações, dinâmicas sociais e culturais. Fundamenta a civilidade nas relações. Cultiva a competência para que todos se sintam como integrantes de um corpo – a humanidade – e se vejam como responsáveis por mantê-lo íntegro.
Educativas e indicativas são as imagens usadas pelo profeta Isaías para iluminar a compreensão do povo, chamado a selar a aliança com Deus e, a partir dessa aproximação, capacitar-se para as alianças entre povos, grupos, pessoas e segmentos diversos, cultivando a fraternidade e a solidariedade que curam o mundo. A aliança é o brotar de uma haste que nasce do tronco seco, fazendo surgir o rebento de uma flor. Ser autenticamente fiel ao que propõe Cristo é o caminho para a nova ordem, aquela que faz o inimaginável : o lobo e o cordeiro vivendo juntos, o leopardo deitar-se ao lado do cabrito, bezerro e leão comendo juntos, o bebê brincando sobre o ninho da serpente venenosa.
As alianças que se alicerçam no modelo de Cristo farão da cidade uma fortificada edificação, com portas abertas a um povo justo, cumpridor da palavra, firme em seus propósitos, conservado na paz porque confia em Deus, a sua rocha eterna. Alcançar essas alianças pressupõe disposição e esforço para dissipar do próprio coração todo o ódio e rancor, empenhar-se no diálogo que requer atenta escuta do outro, desvestir-se de toda a hipocrisia para trajar a armadura da misericórdia e do bem. Advento, este é o tempo de conversão e reconciliação, para que ninguém se torne pedra de tropeço, mas alavanca de alianças, com qualidade para abrir caminhos, oferecer respostas às crises, cultivar a participação igualitária e solidária na sociedade.’
  
Fonte :


quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

Partir da família

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo do Padre Fernando Domingues,
Missionário Comboniano


‘Um dia destes, passou no meu escritório um bispo de Madagáscar. Queria falar de uma preocupação que o acompanha desde quando chegou à sua diocese.
«Temos alguns rapazes – dizia ele – que se apresentam pedindo para serem aceites no seminário. Querem ser padres. Naturalmente, já fizeram um caminho de fé razoável, nas comunidades cristãs a que pertencem, não é que estejam sem bases cristãs. O problema que eu vejo – prosseguia – é que lhes falta uma experiência verdadeira de família
Esta diocese, Morondava, fica na costa ocidental da ilha, em frente de Moçambique. E o bispo sabe muito bem que nesta zona são poucas as famílias que têm um mínimo de estabilidade. A maior parte dos jovens nascem e crescem em famílias – quando há família! – desfeitas e refeitas sabe Deus como e quantas vezes!
Estes rapazes, sem uma verdadeira experiência de vida em família, como poderão um dia mais tarde, como padres, ser animadores de comunidades cristãs, eles que nunca experimentaram a comunidade humana por excelência que é a família? Como poderão reunir a ‘família de Deus’ se nunca souberam o que é viver em família?
Assim, este bispo sonha construir, perto da casa dele, uma casa onde possa acolher por um ou dois anos os seus futuros seminaristas. Ali, o objetivo principal será ajudá-los a viver como uma família, com um ou dois sacerdotes que organizam com eles a vida comunitária de trabalho, de oração e de estudo. Eles poderão, assim, recuperar pouco a pouco aqueles que eram os valores culturais mais importantes das famílias daquela zona, antes que chegasse a situação atual de desagregação geral das famílias. Solidamente enraizados nas melhores tradições culturais do seu povo, os jovens poderão então enfrentar a preparação teológica e pastoral para se tornarem verdadeiros pastores da família de Deus.
Gostei muito da conversa com aquele bispo malgaxe, cheio de vitalidade e de sabedoria ao mesmo tempo. O Papa Francisco gosta de dizer que, para o que é mesmo necessário na vida da Igreja, nunca nos hão de faltar os meios. Também neste caso, espero que seja mesmo verdade.
Afinal, o Natal que vamos celebrar daqui a pouco lembra-nos isso mesmo : Jesus, o fundador da nova família de Deus, começou, ele mesmo, por uma experiência prolongada de vida em família, bela mesmo se nem sempre fácil : primeiro em Belém e depois em Nazaré.
Precisamos de trabalhar para que os nossos padres, do presente e do futuro, sejam mesmo ‘homens de família’, pessoas com grande capacidade de construir e reunir à sua volta comunidades que sejam células vivas da grande família de Deus.’


Fonte :

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

Advento de conexões

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Imagem relacionada
*Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Estas preciosas quatro semanas que precedem a celebração do Natal, o Advento, têm na força da Palavra de Deus um convite a cada ser humano para se renovar. No Advento, ecoa forte a voz do profeta Isaías, que apresenta esse convite a partir de metáforas interpelantes. Conforme anuncia o profeta, o povo, ao afastar-se da luz de Deus-Pai, torna-se ‘pano sujo’, ‘folha seca’. Com isso, a humanidade sofre, convive com retrocessos e prejuízos. Assim, o Advento é uma ‘oportunidade de ouro’ concedida por Deus para que a humanidade reflita sobre suas desconexões.
Na perspectiva espiritual, essas desconexões são os pecados. Já no que se refere ao exercício da cidadania, relacionam-se com as incivilidades, desrespeito ao bem comum, à verdade e à justiça social. Invariavelmente, quando o ser humano se desconecta da luz de Deus, perde a paz. Para recuperá-la, cada pessoa deve engajar-se nas dinâmicas que façam nascer uma nova consciência moral, com incidência sobre a conduta individual, no poder público, nas instituições, nas famílias.
O Advento é oportunidade para se conectar novamente com a luz de Deus, inspirando cada pessoa a reconhecer que não basta buscar somente os ‘lugares confortáveis’, obter títulos, benesses e ganhos financeiros. O egoísmo incapacita as pessoas para estabelecerem conexões e as mantêm aprisionadas na faixa que gera desconexões. Essa inércia alimenta a corrupção, os desmandos, a indiferença, a mesquinhez, comprometendo a vida cidadã. O tratamento terapêutico e penitencial da atual condição humana, que compromete a paz, pede a reconfiguração das instituições e suas dinâmicas. Requer também investimentos na qualificação de processos socioculturais, educativos e da comunicação. É preciso, sobretudo, reconhecer a sacralidade das famílias. Para isso, cada pessoa precisa confrontar a própria consciência e se abrir ao Advento de conexões.
Urge, pois, uma reconfiguração nas mentalidades para alcançar as grandes mudanças que a sociedade demanda. Essas transformações significativas, quando ocorrem, são muito lentas, exatamente pela dificuldade individual em produzir e gerenciar as conexões imprescindíveis ao adequado exercício da cidadania. Desse modo, é indispensável sair da comodidade buscar a renovação pessoal necessária para assumir a responsabilidade na tarefa de transformar o mundo.
As desconexões que produzem ‘cegueira’ diante dos graves problemas sociais geram situações que enfraquecem as instituições. Sabe-se amplamente da existência de processos e procedimentos que comprometem a saúde financeira, a lisura moral, o cumprimento de metas. Mais preocupante ainda é o vício de indivíduos em buscar apenas ganhos pessoais, em seguir as leis do carreirismo, querendo alcançar posições hierárquicas mais elevadas, a qualquer custo. Há ainda um desajuste na gestão das instituições. Por preferir não lidar com os que já se consolidaram em suas comodidades, esse tipo de gestão condena a instituição a transitar entre a mediocridade e a conivência. Essa incompetência humana para relacionar-se com o próximo e com a própria realidade é claro sinal da desconexão com Deus.
É lamentável quando um indivíduo tem sólida formação intelectual e técnica, mas mantém uma condição afetivo-espiritual acanhada. Inevitavelmente, essa pessoa produzirá desconexões em série. Ao contrário, as várias áreas do conhecimento – a exemplo da neurociência e dos estudos da psicogenética – devem servir para apontar caminhos que possam ajudar no processo de renovação pessoal, tão necessário para evitar que a sociedade seja marcada pela delinquência e mediocridade.
O cérebro humano tem um número de conexões sinápticas que, em quantidade, se assemelham às dimensões de uma galáxia. Cada pessoa guarda no coração sentimentos que definem modos de agir e de perceber o mundo. Todos precisam reconhecer o próprio potencial para despertar e engajar-se em novos processos de qualificação humana e espiritual. Se cada cidadão não abrir seus próprios olhos para as muitas desconexões, a humanidade ficará ainda mais semelhante a um ‘pano sujo’ ou ‘folha seca’, bem diferente do plano de Deus. A mudança começa pelo humilde compromisso de bater no próprio peito, assumir responsabilidades, e exercitar a difícil tarefa de se observar.
Para ajudar cada pessoa a reconhecer-se como importante na transformação do mundo, a respeitar e a amar o seu semelhante, resgatando a dignidade humana, é que o Filho de Deus vem, nasce e entra na história, com o paradigma de sua encarnação : um broto de esperança para o mundo, Advento de conexões.’


Fonte :


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Ética islâmica e ética cristã

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 *Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘... Aos poucos vou chegando à conclusão de que é essencial mudar a atitude de comparar religiões, e adotar uma abordagem que respeite as diferenças, ensejando a abertura de caminhos para a fraternidade e enriquecimento.
 Tratando-se do relacionamento entre Islã e Cristianismo, as duas principais religiões monoteístas do planeta, existem muitos pontos comuns no campo da ética e moral.
Embora não exista ainda igualdade como nas sociedades ocidentais marcadas pela cultura cristã, constata-se uma evolução significativa quanto ao casamento e a vida conjugal, aproximando-se consideravelmente da moral cristã. A poligamia vai sendo abolida e o poder masculino de repudiar uma mulher deixa de ter respaldo legal.
A família é vista como a célula básica da sociedade por ambas as religiões. O matrimônio também é reconhecido como a única maneira de criar a entidade jurídica.
A promoção e a defesa da vida, do começo ao fim, são defendidas tanto por cristãos como islâmicos, sendo proibido o aborto, embora exista certa tolerância quanto ao chamado aborto terapêutico.
A  esterilização, mutilação e eutanásia são práticas não aceitas por islâmicos e cristãos.
Enfim, se a ética islâmica se revela assim próxima à bíblica e assume os ensinamentos do Antigo Testamento, é preciso reconhecer que, às vezes, ela oferece aos muçulmanos a possibilidade de admitir algumas posições do Evangelho.
Especialistas no estudo do Alcorão revelam que, de uma forma ou de outra, ‘o verdadeiro monoteísmo consiste no amor a Deus e no amor ao próximo’, interpretando assim o texto do Alcorão à luz do ensinamento Bíblico e Cristológico, do ‘duplo mandamento do amor’. Amar a Deus e ao próximo como a si mesmo.’


Fonte :


domingo, 10 de dezembro de 2017

A transmissão da fé não pode acontecer sem a transmissão do verdadeiro sentido da liturgia cristã

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A fé unicamente professada, mas não comemorada, reduze-se a mero conhecimento e acabe se endurecendo em doutrina.
*Artigo de Goffredo Boselli
monge e liturgista da Comunidade Monástica de Bose (Itália)


‘Devido às suas raízes bíblicas e desde suas origens pascoais, a fé cristã não foi somente professada, testemunhada e vivenciada, mas também celebrada. Isso quer dizer que não pode haver uma fé confessada que não seja ao mesmo tempo fé celebrada pela comunidade cristã por meio das palavras, gestos, linguagem, tempo e espaço gerados pelo encontro entre a palavra de Deus e da fé da Igreja.
A fé celebrada é a fé orada, é a fé alimentada pelo Corpo de Cristo que é o Evangelho e a Eucaristia, a fé professada juntamente com os irmãos e irmãs, é a fé zelada pela comunidade na forma da comunhão e do compartilhamento. A fé unicamente professada, mas não comemorada, reduz-se a mero conhecimento e acabe se endurecendo em doutrina. A fé unicamente testemunhada, mas não comemorada, assume o tom de propaganda e o estilo do proselitismo. A fé unicamente vivenciada, mas não comemorada, é destinada, em longo prazo, a se transformar em simples moral, em simples compromisso social e promoção humana. Celebrar significa trazer a vida de fé para a sua fonte única e inesgotável, que é a escuta da palavra de Deus e a epiclese do Espírito Santo. Somente a Palavra e o Espírito vivificam o mistério pascal que não é só a morte e a ressurreição, mas toda a vida do Filho.

O vasto tesouro das tradições litúrgicas
Não é, portanto, possível comunicar o conteúdo da fé ao homem e a mulher de hoje, sem introduzir ao crente o significado e o valor da celebração da fé. Nunca será autêntica iniciação na fé aquela que não sabe preparar também à celebração da fé.
Mas como foi possível pensar em proclamar a boa vida do Evangelho sem afirmar o papel decisivo da liturgia na transmissão da fé? Sem mencionar que é nos sacramentos que a bondade do Evangelho toma forma, a fim de se tornar vida vivenciada? Para um grande Padre da Igreja, como Clemente de Alexandria, os não iniciados nos mistérios, ou seja, os crentes que não sabem celebrar a própria fé, se assemelham aos que na dança não acompanham a música. O Catecismo ainda hoje, vinte e cinco anos depois, continua a ser o ponto mais maduro e avançado do ensinamento da doutrina católica sobre a liturgia. A catequese litúrgica que ele oferece representa um importante crescimento da inteligência do sentido da celebração do mistério.
Isso é especialmente por causa da qualidade evangélica e pelo genuíno espírito cristão expressos pelo ensinamento litúrgico do Catecismo, pelo tributo bíblico e patrístico que o atravessa, por sua busca constante no vasto tesouro das tradições litúrgicas orientais, valorizando a riqueza da liturgia romana renovada pelo Vaticano II.
O Catecismo combina fidelidade à grande tradição litúrgica cristã com a capacidade de expressar o sentido e o valor da celebração do mistério no hoje da Igreja e do mundo. A renovação litúrgica desejada pelo Concílio Vaticano II e implementada na vida das Igrejas locais e nas páginas Catecismo atingiu a maturidade teológica e espiritual completa.
A autoridade doutrinária singular que o Catecismo possui faz de todo o seu conteúdo um ponto de não retorno na compreensão do mistério da liturgia. E, ao mesmo tempo, uma referência particularmente conceituada diante de todo eventual questionamento dos princípios teológicos que são a base da renovação litúrgica realizada pela Igreja desde o Concílio. Da mesma forma, é uma base sólida e indispensável para a renovação litúrgica dos próximos anos. O Catecismo ensina a fé da Igreja em sua liturgia, enquanto crer na Igreja, como se professa no Símbolo de fé, também significa crer na liturgia que ela celebra. O ensino litúrgico do Catecismo declara imediatamente o seu estilo pedagógico : ‘Esta catequese fundamental sobre as celebrações sacramentais responde às primeiras perguntas que os fiéis fazem sobre o assunto : quem celebra? como celebrar? quando celebrar? onde celebrar?’ (1135).

‘A assembleia celebrante’
A escolha do Catecismo de expor o ensino da liturgia na forma de respostas a quatro perguntas simples apresentadas pelos fiéis, não só define a escolha precisa da mistagogia como método de catequese, mas transforma o Catecismo em um verdadeiro Mistagogo e, portanto, para aqueles que dele se aproximam, iniciados nos santos mistérios. Essa inequívoca opção entre as várias possíveis, revela e, ao mesmo tempo, chancela a consciência da íntima conexão entre liturgia e catequese, própria não só da tradição patrística, mas já visível nas mesmas Escrituras Sagradas desde o evento cujo memorial fundamenta todo o ritualismo judaico e cristão : a Páscoa.
Como exemplo da pedagogia litúrgica do Catecismo, vejamos a resposta que ele dá à primeira pergunta : ‘Quem celebra’. A liturgia não é a ação de um, ou alguns, aos quais a comunidade cristã delega a celebração dos sagrados mistérios, mas ‘é toda a Comunidade, o Corpo de Cristo unido ao seu Chefe, que celebra’ (1140); ‘a assembléia que celebra é a comunidade dos batizados’ (1141), em nome do sacerdócio comum de Cristo, no qual todos os seus membros participam. Apontando, portanto, o serviço essencial e exclusivo representado para a comunidade pelos ministros ordenados, que ‘operam na pessoa de Cristo-Chefe, para o serviço de todos os membros da Igreja’ (1142), o Catecismo formula uma nova e audaciosa expressão : ‘Toda a assembléia é ‘o liturgista’’ (1144).
Diante da resistência ao uso da expressão ‘assembleia celebrante’ - também objeto de explícitas proibições - o Catecismo vai muito além ensinando que não só a comunidade cristã é ‘sujeito integral da ação litúrgica’ (como o título de um famoso artigo de Congar), mas que a comunidade reunida em assembleia não é só plenamente sujeito da celebração litúrgica, mas é ela mesma liturgia enquanto Ecclesia congregada.
Se a promulgação do Catecismo de 11 outubro de 1992, trinta anos depois do Concílio, foi acolhida e reconhecida como um evento particularmente importante para a vida da Igreja, ainda hoje, vinte e cinco anos depois, continua a ser uma ferramenta indispensável e decisiva para a transmissão da fé da Igreja que comporta em si mesma também a transmissão do verdadeiro sentido da liturgia.’

IHU/ Vita Pastorale – Tradução : Luisa Rabolini.


Fonte :


sexta-feira, 8 de dezembro de 2017

A inabalável fé do povo russo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Catedral de Santa Sofia. considerada a primeira igreja construída na Rússia, em 1050.
Catedral de Santa Sofia, 
considerada a primeira igreja construída na Rússia, em 1050.


*Artigo de Pablo Pires Fernandes,
jornalista


‘É curioso para um estrangeiro na Rússia constatar a força da fé cristã do povo russo. A despeito dos 70 anos de governo socialista, o fervor religioso se manteve arraigado, o que é facilmente constatado nos templos, que se destacam na paisagem das cidades com suas cúpulas arredondadas e coloridas.
Para um brasileiro, as igrejas russas chamam a atenção pela quantidade de ícones e pela riqueza de ornamentos. Ali, as paredes são tomadas por pinturas com representações de santos e cenas bíblicas, algumas, inclusive, sequenciais, numa espécie de primórdios das histórias em quadrinhos, por criar narrativas a partir de imagens. São obras de arte que fundaram uma importante tradição pictórica com características únicas.
Nos dias em que passei na Rússia, visitei uma meia dúzia de igrejas. Algumas funcionam como museu, dada a importância histórica e estética da construção. Mesmo no ambiente predominantemente turístico, pude notar a devoção dos russos aos símbolos sagrados. Em outras que adentrei, mais frequentadas pela população local, testemunhei gestos de profunda e dedicada devoção. Impressionei-me com a especial reverência à Maria, traço comum do cristianismo praticado no Brasil.
Nos templos russos, não há bancos ou cadeiras e os ritos são seguidos pelos fiéis de pé. Também não há altar ou púlpito e a missa que pude acompanhar era administrada por três sacerdotes, próximos ao público que, em determinado momento, percorriam todo o local com incensos para abençoar os presentes.
Diante do meu desconhecimento sobre a igreja na Rússia e suas tradições, quis saber mais a respeito. Soube, então, que a Igreja Ortodoxa Russa foi oficialmente fundada em 988, mas a cristianização da região começou no século anterior, por São Cirilo e Metódio, que traduziram partes da Bíblia para a língua eslava. Os princípios cristãos foram difundidos em maior escala pela princesa Olga, convertida em santa, e seu neto Vladimir I, na virada do milênio. Desde então, a igreja desempenhou um papel fundamental para a unidade do povo russo e esteve diretamente ligada ao Estado.
Em 1054, ocorre o Grande Cisma, quando a Igreja Ortodoxa Russa rompe com a Igreja Apostólica Romana, por discordâncias teológicas e políticas. Durante as muitas invasões ocorridas no território hoje denominado Rússia, a Igreja e a fé desempenharam papel significativo como elo cultural entre as diferentes etnias da nação. Em vários momentos, as relações entre Estado e igreja foram abaladas por divergências políticas, mas a presença da religião sempre se manteve influente e viva entre a população.
A Revolução de Outubro de 1917 representou outra transformação na relação entre Igreja e Estado. Em janeiro de 1918, o líder bolchevique Vladimir Lênin publicou um decreto no qual desvinculava a Igreja de quaisquer poderes públicos, transferindo o exercício religioso para o âmbito privado e desapropriando-a de todos seus bens, além de proibir o ensino religioso nas escolas.
As consequências da revolução para a Igreja foram trágicas. Milhares de sacerdotes, monges, freiras e fiéis foram assassinados – estima-se em mais de 100 mil entre 1917 e 1940 – e outros tantos torturados e perseguidos. O Estado pregava o ateísmo nas escolas e as manifestações e práticas religiosas se refugiaram em locais privados.
Em 1943, o líder Josef Stalin, para angariar apoio à campanha militar na Segunda Guerra Mundial, reconciliou-se com os líderes religiosos, permitindo a abertura de escolas e igrejas, o que reavivou a prática cristã no país. Desde então, as relações entre Estado e Igreja se incrementaram consideravelmente. Depois do colapso da União Soviética, a expansão da Igreja Ortodoxa foi significativa, embora religiões ocidentais tenham conquistado espaço na Rússia. Mesmo assim, cerca de 90% da população se declara cristã ortodoxa, apesar de o número representar mais um elo cultural do que uma prática religiosa efetiva.
Apesar da brutal perseguição a seus membros e das tentativas de deslegitimar a fé, o povo russo se manteve fiel e crente. As belíssimas igrejas russas são testemunhas da história e um dos mais importantes legados culturais da nação. A vigorosa religiosidade do povo russo é visível, presente no dia a dia de boa parte da população e, considerando a história, deve continuar inabalada por séculos.’

Fonte :


quinta-feira, 7 de dezembro de 2017

Apelo da Caritas : Quem abriria as portas ao Menino Jesus refugiado?

 Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Logo após seu nascimento, Jesus se tornou um refugiado.
Logo após seu nascimento, Jesus se tornou um refugiado


‘‘O Menino Jesus nos chama a olhar as crianças nascidas em acampamentos, nas fronteiras, marginalizadas de nossas sociedades, com olhos novos e audazes. Nos atrevemos a abrir nossas portas?
Esta é a provocação do Presidente da Caritas Internacional, Card. Luis Tagle, no apelo para o período do Advento.
Os sinos tocam durante o Advento não somente para a celebração, mas também para nos despertar do nosso sono’, escreve o Cardeal filipino, convidando os fiéis a uma contribuição neste Natal.
Jesus nasceu numa estrebaria, nos arredores de Belém, na periferia ou ‘zona desfavorecida’, como se diria hoje. A Sagrada Família, recordou o Card. Tagle, era una família de migrantes. E logo após seu nascimento, Jesus se tornou um refugiado.
Mas nos atrevemos a abrir nossas portas? Nos atrevemos a abrir nossos olhos e corações a essas crianças?’, questionou o Presidente da Caritas Internacional.
Através do Menino Jesus, Deus se aproxima de nós e nos chama a avançar em nossa própria viagem pessoal.
Enquanto esperamos o nascimento de Jesus, estamos chamados a abrir nossos olhos e corações à possibilidade da esperança. Deus está conosco, no caminho da nossa vida e também nós estamos chamados a acompanhar os outros em sua caminhada.’
Para ajudar a Caritas em seu trabalho com migrantes e refugiados, acesse a a página internacional ou a nacional.’

Fonte :

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Coréia do Sul : além do K-pop e o Gangnam style, uma igreja católica vibrante

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Presidente Moon Jae-in e a primeira dama, Kim Jung-sook.
Presidente Moon Jae-in e a primeira dama, Kim Jung-sook

*Artigo de Victor Gaetan
correspondente sênior da National Catholic Register 


‘Contando como adeptos desde celebridades, freiras e até o presidente e sua paróquia, a Igreja Católica na Coréia está hoje, mais do que nunca, viva e ativa.
Quando as superestrelas do ‘K-pop’ coreano Rain, de 35 anos, e Kim Tae Hee, de 37 anos, anunciaram seu casamento no ano passado, todos os detalhes eram secretos - exceto os planos para que a cerimônia fosse na Igreja Católica.
Entre os shows compartilhados pelo casal, há um vídeo musical, com cerca de 20 outras celebridades coreanas, saudando o Papa Francisco, que visitou a Coréia na sua primeira viagem à Ásia em agosto de 2014.


Como a maioria dos novos católicos, Rain foi batizado já adulto. Em 2016, 74% de todos os batismos na Coréia eram adultos. Há dez anos, essa porcentagem era de 84%.
Agora, o famoso casal se transformou em verdadeira inspiração aos olhos da Igreja : eles tiveram uma menina há quatro semanas - Rain anunciou o nascimento com o hashtag #abençoado no Instagram - bem no momento em que a Igreja está interessada em encorajar famílias maiores.
A taxa de natalidade da Coréia é uma das mais baixas do mundo, apesar do fato do aborto ser ainda ilegal.
A baixa taxa de natalidade é um problema para a Igreja’, confirmou o padre Paul Yoo, pároco da Igreja Católica Hongje-dong em Seul, que conta com a presença do presidente Moon Jae-in e da primeira-dama Kim Jung-sook, uma cantora de música clássica.
O padre Yoo considera a política educacional da nação e as altas despesas em tutorias escolares privadas como parte da explicação dos fenômenos das famílias mono parentais.
Todavia, de muitas outras maneiras, uma visita à paróquia do padre Yoo - em um bairro de classe média baixa nos arredores de Seul - ajuda a explicar por que a Igreja Católica na Coréia é vibrante e admiravelmente saudável.

Paróquia animada
Às 5:30 da tarde, o adro da Igreja está agitado, enquanto as famílias pegam as crianças nas creches e outros chegam para uma missa noturna diária.
Na missa, que estava cheia, nota-se que a maioria das mulheres usa véus brancos. O Sinal da Paz é compartilhado com profundos gestos de reverencia entre todos, em vez de apertos de mão; e nenhuma cesta de doação é usada no momento da oferenda, pois é considerado indiscreto coletar dinheiro tão publicamente.
O padre Yoo explica que a paróquia é capaz de manter um forte acento na catequese através da ajuda de quatro religiosas, que vivem próximas da igreja em um pequeno convento : duas dirigem um jardim de infância no local, enquanto outra administra os serviços da Igreja, incluindo a catequese para adultos.
Os programas da escola dominical cobrem todas as crianças em idade escolar, desde o ensino fundamental até o ensino médio.
A Coréia do Sul tem uma abundância de mulheres religiosas : há aproximadamente 10.170 irmãs espalhadas entre 78 ordens de jurisdição papal e 36 institutos religiosos diocesanos. Existem cerca de 1.560 irmãos religiosos.
Para promover a comunhão e arrecadar fundos para o trabalho de caridade, os voluntários dirigem um serviço completo de café e lanche, chamado Harang (‘amor de Deus’) nas instalações da igreja. Os fundos são usados principalmente para ajudar a apoiar os pobres da paróquia e os idosos, incluindo os não paroquianos.
No altar e no mundo mais amplo, a Igreja de Hongje encontra maneiras criativas de envolver os fiéis : o padre Yoo também oferece missas familiares a pequenos grupos de famílias e amigos para aproximá-los da liturgia, diz ele.
As fotos no site da igreja representam uma variedade impressionante de atividades : de retiros masculinos até excursões que, particularmente, as mulheres parecem adorar, bem como as devoções do Rosário e as feiras de alimentos.
Três paróquias de Seul patrocinaram uma peregrinação a Macau para subir a escadaria de Santo André Kim Taegon, santo padroeiro da nação.
Ordenado em Xangai, na China, em 1845, como primeiro sacerdote coreano, depois de estudos no seminário da ilha de Macau (então uma colônia portuguesa), Santo André Kim voltou para casa e foi decapitado apenas um ano depois, aos 25 anos - martirizado, como foi seu pai e seu bisavô.

Igreja Homegrown
O Evangelho foi trazido para a Coréia por leigos católicos que se reuniam em casas, oravam e liam o Evangelho. Não havia missionários nem sacerdotes’, explicou o padre Yoo.
Em 1784, os leigos, que ouviram falar da fé da China, enviaram um estudioso confuciano a Pequim para aprender mais sobre o catolicismo. Ele foi batizado e retornou à Coréia com livros para seus companheiros, que acabaram espalhando a fé.
Em apenas sete anos, a dinastia Joseon condenou e proibiu o catolicismo como ameaçador para o confucionismo - a religião do Estado - e as tradições de veneração dos ancestrais. A proibição não foi levantada até 1895.
Por quase 100 anos, ondas e ondas de perseguição arrasaram comunidades católicas na península em uma sangrenta história, lembrada por São João Paulo II em 1984 quando ele canonizou 93 mártires coreanos e 10 missionários franceses também mortos pela fé.
De acordo com a homilia do Papa - feita para a primeira canonização realizada fora de Roma desde a Idade Média - cerca de 10 mil católicos coreanos foram martirizados nos primeiros 100 anos de vida da Igreja.
Três anos atrás, o Papa Francisco beatificou outros 124 mártires coreanos. Em todos os sentidos, o fundamento da Igreja da Coréia são os leigos e a história de profunda convicção e fé constantemente testadas com o martírio e que ainda alimentam sua tenacidade e fecundidade hoje.

Apoio à democracia
Outro fator histórico que alimenta o respeito nacional pelo catolicismo - e os convertidos - foi o papel da Igreja na promoção da democracia, especialmente contra a ditadura militar nas décadas de 1970 e 1980.
A Associação de Sacerdotes Católicos para a Justiça (CPAJ), fundada em 1974, era uma organização determinada a enfrentar uma série de regimes acusados de corrupção e abuso de poder.
A Igreja Católica encorajou os ativistas estudantis, explicou o padre Yoo, até oferecendo refúgio e proteção para alguns que fugiram do governo e precisavam escapar da prisão.
O apoio católico à reforma não era apenas um fenômeno local, paroquial.
São João Paulo II ouviu testemunhos de estudantes enquanto ele estava na Coréia do Sul em 1984. Ele os encorajou a perseverar, mesmo quando ‘baterem em uma parede de incompreensão’.
Um estudante preso fez uma pequena estátua de Jesus esmerilhando uma escova de dentes no chão de sua cela - a juventude reunida deu a escova de dentes deste Jesus ao Papa João Paulo II.
Milhares de coreanos foram presos sob a ditadura, que terminou em 1992, quando o primeiro presidente civil foi eleito livremente.
Entre os ativistas pró-democracia presos estava o presidente Lua Jae-in, eleito em maio, quando a presidente em exercício foi acusada de corrupção.

Presidente e Paroquiano
Uma das primeiras coisas que o novo presidente fez depois de tomar posse no palácio presidencial, conhecido como Casa Azul, foi pedir ao padre Yoo que viesse abençoá-lo.
Ele é um católico devoto e uma pessoa incrivelmente humilde, com os pés no chão’, apontou o padre Yoo, que convidou as quatro irmãs religiosas da paróquia a acompanhá-lo para a bênção especial. 
Presidente Moon Jae-in e a primeira dama, Kim Jung-sook. O Padre deu ao presidente Lua uma fotografia de um pequeno barco com um único remador em um vasto oceano : ‘Há um velho proverbio chinês que diz que um rei é como um barco e as pessoas são a água. Se eles se irritarem, levantam-se e derrubam o barco’.
O padre Yoo espera que o presidente busque a reconciliação com o Norte comunista, uma das suas promessas de campanha, que também é a posição da Igreja Católica sobre a solução mais popular.

Católicos em Elite
O arcebispo Hyginus Kim Hee-joong, presidente da Conferência Episcopal da Coréia, explicou ao site National Catholic Register que uma alta porcentagem de católicos se encontra no parlamento do país (cerca de 25%) e na liderança militar (cerca de 35%).
O arcebispo Kim confirmou que a história da Igreja como produto de um movimento leigo e que sua forte defesa pública pela democracia e sua oposição ao autoritarismo serviram para torná-la uma instituição muito admirada.
Muitos católicos têm sido cidadãos exemplares, como o único vencedor do Prêmio Nobel da Coréia, o ex-presidente Kim Dae-jung, que serviu de 1998 a 2003. O mandatário recebeu o Prêmio Nobel pela Paz em 2000.
Uma pesquisa de 2015 revelou que o catolicismo é a religião mais respeitada na Coréia do Sul, seguida do budismo.
As denominações protestantes também têm bons seguidores, embora uma série de escândalos que envolvem a corrupção em grandes igrejas prejudicou a reputação de alguns pastores. Aproximadamente 30% da população sul-coreana de 52 milhões de habitantes, é cristã.
O bispo emérito Park Jeong-il, originário de Masan, de 91 anos, nascido na Coreia do Norte, de onde fugiu do comunismo na década de 1950, pensa que os coreanos desenvolveram uma visão positiva do cristianismo porque muitas organizações da Igreja alimentaram e cuidaram dos refugiados e pessoas deslocadas durante e após o conflito bélico.
Os cristãos eram uma imagem do amor de Deus’, disse ele ao National Catholic Register no seminário principal de Seul, onde 217 sacerdotes estão em formação. ‘Agora temos vocações suficientes para oferecer sacerdotes para servir em outros países’.
No ano passado, havia mais de 1.045 sacerdotes coreanos servindo no exterior, tendo os maiores grupos vivendo na China (95), Filipinas (91), França (49), Itália (42) e Vietnã (40).
Os que estão na China estão concentrados em grande parte no Nordeste (na província de Jilin que inclui a prefeitura autônoma coreana de Yanbian, com uma maioria de coreanos), e atuando com comunidades coreanas em Pequim e Hong Kong.
Não só os laços crescem entre a Igreja Católica Coreana e a Igreja na China, mas os clérigos coreanos falam cada vez mais sobre a melhoria da confiança e das relações a nível regional para garantir a paz.
Nossa diplomacia sofreu com a perda de independência’, observou o padre Yoo, em referência à influência dominante dos EUA na Coreia do Sul.
Todo clérigo católico (incluindo os bispos e o Cardeal), falando aberta e sutilmente acha que a influência dominante dos EUA trouxe uma diplomacia coreana anêmica.
Precisamos estabelecer confiança ... através da diplomacia regional, e já estamos trabalhando nisso’, confirmou o arcebispo Kim. ‘Nada é impossível para nós, com Deus’.’

National Catholic Register - Tradução: Ramón Lara

Fonte :