domingo, 20 de agosto de 2017

O mundo em contorções

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

As Cruzadas em terras do Oriente Médio, há muito foram sepultadas, contudo ergueram-se das trevas os exércitos do Estado Islâmico.
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Mais uma vez me faço a antiquíssima pergunta : ‘o que veio primeiro : o ovo ou a galinha?’ Explicando : o mundo está em dolorosas e assustadoras contorções, ou são apenas os noticiários que se multiplicam numa escala geométrica, desnudando assustadoramente essa condição que sempre existiu, mas estava semioculta pela insuficiência dos meios de divulgação? Ou, quem sabe, o que existia era bem menos e menor do que assistimos agora, e por isso não nos causava preocupações como hoje?

Vejamos : a política internacional estava aparentemente calma, os Estados Unidos e Cuba pareciam começar a se entender e a andar de mãos dadas, e de repente os americanos do norte cometeram o desatino de colocar na presidência um excêntrico multimilionário que nunca exerceu um cargo público. E, dizem as más línguas, com a ajuda do serviço secreto soviético. Com isso a relação com Cuba foi para o espaço, mesmo sendo este país um forte aliado dos russos. Dá para entender? Para complicar, a Coreia do Norte, liderada por um estranho e irritadiço filhote de papai, ameaça soltar atômicos fogos de artifício sobre as cabeças de japoneses, coreanos do sul, com sobra suficiente para os americanos do norte. Como Cuba e Coreia do Norte são aliados dos chineses e russos, o mundo fica sob a ameaça de destruição total. E mais : por quatro vezes e meia seguidas! Afinal essa é a possibilidade que eles alardeiam, com base no tamanho do arsenal nuclear que possuem. Pergunto : não bastaria destruí-lo todinho, uma vez só? Como, e para prenunciar a impossível reprise do apocalipse nuclear por tantas vezes?

As Cruzadas em terras do Oriente Médio, há muito foram sepultadas, contudo ergueram-se das trevas os exércitos do Estado Islâmico e as maiores barbáries explodiram nas TVs, nos jornais, nas redes sociais. Seus tentáculos se espalham pelo mundo, destroçando prédios, mutilando pessoas, usando corpos fragmentados de adultos e crianças para, em nome de um deus só existente em mentes doentias, tentar impor suas ideias – se é que as têm.

Deixando o noticiário internacional, volto meu olhar estarrecido para a outrora gentil pátria brasileira. Assisto então, com engulhos, o desfile de insanidades pela mídia noticiosa nacional, com escandalosa repercussão internacional. São revoltas nas penitenciárias, com detentos massacrando, decapitando, adubando com sangue o terreno que irá parir novas e maiores violências; as cracolândias nas médias e grandes cidades, onde verdadeiros zumbis desfilam dia e noite sua desgraça e sua rejeição social; a estupidez dos assaltos a mão armada contra pessoas indefesas, que são agredidas e até assassinadas por terem ousado carregar ‘apenas’ um celular obsoleto ou ter seus bolsos vazios, mesmo sendo isso a consequência do desemprego que castiga milhões de brasileiros. Estupros, patri e matricídios, toda essa indigesta e sanguinolenta salada enriquece matérias jornalísticas e bandeiras eleitorais nunca cumpridas.

Disputando o espaço midiático, talvez para contrabalançar as notícias catastróficas, desfilam pelas colunas sociais mulheres ricamente adornadas, homens sorridentes falando dos novos carros de super luxo, de seus helicópteros e jatinhos executivos, que lhes permitem ficar muito acima e bem mais distantes do comum dos mortais. E o que dizer dos rapazes e moças nessas mesmas colunas – certamente custeados pelos orgulhosos papais – exibindo as caríssimas roupas de grife, muitas delas verdadeiramente ridículas?

Lembrei-me do saudoso Millor Fernandes, que sob o pseudônimo de Vão Gogo pontificou, em formatação atualizada : ‘Quando a gente começa a pensar que os humanos ficaram inteligentes, vem um modista e estraga tudo…’ Quase todos absolutamente alienados do lado obscuro de nosso país, onde falta habitação, comida e roupas descentes, e sobretudo empregos com salários suficientes para proporcionar sobrevivência digna. Parece até que são dois mundos distintos, cada um num sistema planetário totalmente isolado do outro. Para defende-los, alguns se dizem ‘otimistas’ e seguem rigorosamente a cartilha do famoso Joãozinho Trinta, falecido em 2011, e que defendia a riqueza dos carros alegóricos do carnaval carioca e paulista, filosofando : ‘Quem gosta de pobreza é intelectual’.

Discordo, pois quem tem cérebro pensante não gosta de pobreza, apenas a denuncia por não se deixar alienar pelas cores douradas dos três dias de carnaval. Afinal, sua consciência crítica lhe recorda sempre que tudo vai se acabar na quarta-feira de cinzas, exceto o desemprego, a fome e a miséria...

E para encerrar esse triste desfile, surgem em destaque os ilustres políticos, certos juristas e alguns empresários, antes unidos numa relação espúria, mas agora trocando acusações e delações premiadas. Os três grupos, com as calças nas mãos e saudosos de suas mansões, serviçais e limusines, jatinhos e helicópteros, tudo sendo trocado, por golpes do azar – ou será da justiça? – por cubículos gradeados, latrinas devassadas e banhos coletivos de água fria. Isso sem falar das cabeças raspadas – ou quase – recordando-os dos seus cabelereiros (ou melhor será dizer ‘coiffeurs’, para respeitar seus pedigrees?), quase sempre regiamente remunerados com as verbas públicas de representação oficial, ou através dos famigerados cartões corporativos, cujos gastos são secretos porque afirmam ser questão de segurança nacional. E ignorando os federais, os promotores e juízes que ainda teimam em ser honestos, muitos continuam insistindo em criar leis para enriquece-los ainda mais, defendendo a farra dos aumentos de seus já polpudos salários, tripudiando os desempregados e os funcionários com salários congelados e pagamento atrasado, muitos sobrevivendo da caridade alheia.

O mundo está em contorções, como a história diz que esteve no ocaso do império romano, nas corrompidas Sodoma, Gomorra, Pompéia, e tantos outros exemplos lapidares.’


Fonte :

sexta-feira, 18 de agosto de 2017

O imperador da China que escrevia poemas católicos!

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
       *Artigo de Jean Elizabeth Seah 


Poema da Cruz / A morte de Cristo

功成十架血成溪,百丈恩流分自西。
身列四衙半夜路,徒方三背两番鸣。
五千鞭挞寸肤裂,六尺悬垂二盗齐。
惨动八垓惊九品,七言一毕万灵啼。

Uma vez se completou o trabalho na Cruz,

o sangue formou um riacho de sangue

e, do oeste, circulou mil metros.

Pisou o caminho da meia-noite para submeter-se a quatro juízos.

Antes que o galo cantasse duas vezes, três vezes foi traído.

Quinhentos açoites rasgaram-lhe cada centímetro da pele.

Dois ladrões o acompanharam na cruz de seis pés de altura.

A tristeza era de magnitude nunca antes conhecida.

Sete palavras, uma tarefa cumprida, dez mil almas que choram.


Este poema católico, no original em chinês, contém todos os números de 1 a 10, bem como o 100, o 500, o 1.000 e o 10.000 (na tradução, alguns números não aparecem, pois as expressões originais não teriam sentido se fossem vertidas literalmente). A propósito : é interessante observar que o ideograma chinês que representa o 10 tem a forma de uma cruz : .

Seu autor é o erudito imperador Kangxi (康熙帝), que viveu de 1654 a 1722. Ele, que ascendeu ao trono aos 7 anos de idade, esteve à frente do reinado mais longo da China e um dos mais longos do mundo : 61 anos.

Os primeiros imperadores da dinastia Qing eram receptivos ao cristianismo. O pai de Kangxi, o imperador Shunzhi, visitava com alguma frequência a igreja católica mais antiga da China, a Catedral da Imaculada Conceição, ou a Igreja do Sul, para receber conselho do missionário jesuíta Johann Adam Schall von Bel.

Essa catedral recebeu por cortesia de Shunzhi uma lápide com a inscrição ‘Construída pela Ordem Imperial’. Durante o reinado de Kangxi, o templo foi ampliado. Os jesuítas, além da pastoral, também exerceram funções como astrônomos e meteorologistas imperiais nas cortes das dinastias Ming e Qing, o que favoreceu a introdução da ciência e da matemática ocidental no Império do Meio. Nesse período foram erguidos hospitais, museus, universidades e laboratórios públicos em cidades-chave como Xangai.

Kangxi ofereceu aos jesuítas uma casa dentro da Cidade Proibida, complexo destinado exclusivamente à família imperial e ao seu séquito, assim como um terreno para levantar uma igreja. Uma vez finalizadas as obras da igreja, o imperador redigiu em seu ingresso uma inscrição de próprio punho :

Ao verdadeiro Líder de todas as coisas. Ele é infinitamente bom e justo. Ele ilumina, apoia e rege todas as coisas com autoridade suprema e justiça soberana. Não tem princípio nem fim. É Ele quem governa e é Ele o verdadeiro mestre.

No final do reinado de Kangxi, havia aproximadamente 300.000 católicos e 300 igrejas na China, inclusive após a querela dos ritos que obrigou o imperador a restringir o catolicismo por sentir a sua autoridade ameaçada. Essa proibição não foi absoluta : missionários com visto puderam permanecer. Eis outro poema de Kangxi :

Sobre a Verdade

Tudo o que a vista alcança é criação d’Ele.

Ele, que no tem princípio nem fim, é três pessoas em uma.

As portas do céu se fecharam pelo pecado do primeiro homem e voltam a se abrir por meio do Filho.

Uma vez libertos de todas as falsas religiões, devemos converter-nos em discípulos por todos admirados.


Fonte :

quinta-feira, 17 de agosto de 2017

Bom pelicano

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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 *Artigo do Padre Geovane Saraiva,
Pároco de Santo Afonso de Fortaleza, CE,
e vice-presidente da Previdência Sacerdotal


‘A Igreja sempre contou com a imagem do pelicano, pássaro que na Europa Medieval era considerado animal singularmente zeloso. Ele alimentava os filhotes com o alimento tirado da sua própria bolsa e, se chegasse a faltar alimento, esse pássaro, numa maneira inaudita e divina de proceder, os alimentava com o próprio sangue. Vemos, na personificação do expressivo quadro do pelicano, o abraço e a configuração : Pelicano e Eucaristia. Diante disso, temos o belíssimo comentário de São Jerônimo, sobre o Salmo 102, na seguinte assertiva : ‘Sou como um pelicano do deserto, aquele pássaro bom que fustiga o peito e alimenta com o próprio sangue os seus filhos’. Ele é o símbolo da obediência da entrega do Filho de Deus, o qual nos convida, com Ele, a nos configurarmos.

O pelicano quer representar todos os que abraçam o mistério da salvação, numa atitude totalmente solidária, deixando-se conduzir pelo espírito de Deus, a caminho da glória. Quão enorme é a simbologia do pelicano, isto é, da Paixão de Cristo, na Eucaristia e na autoimolação – o Cordeiro pascal. Esse tipo de ave costumava sofrer de uma doença que o deixava com uma marca vermelha no peito. Outra versão é a de que esse tipo de animal tinha o hábito de matar os seus filhotes e, depois, ressuscitá-los com seu sangue, o que seria análogo ao sacrifício redentor de Jesus, no Seu memorial de morte e ressurreição.

Na nossa disposição sempre renovada de mergulhar em Deus, voltemo-nos para Santo Tomás de Aquino, ao asseverar : ‘O pelicano bom a nos inundar com vosso sangue, sangue no qual, através de uma só gota, quis salvar o mundo inteiro’. Que o pássaro bom, Nosso Senhor Jesus Cristo, indique-nos o caminho da Páscoa eterna, ensine-nos a amar mais a Eucaristia, sacramento no qual Jesus se acha presente, com seu corpo, sangue, alma e divindade, como banquete sagrado!

Que a nossa fé na Eucaristia, pão que sacia a vida dos seres humanos, empolgue-nos e fascine-nos não só em momentos circunstanciais da vida, mas que nos leve a um forte e consequente desejo de aprender sempre e cada vez mais a vivermos animados e com a marca da esperança, voltando-nos para Jesus, o bom pelicano de todos os tempos.’


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quarta-feira, 16 de agosto de 2017

O fascinante sentido espiritual por trás da palavra “paróquia”

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

*Artigo de Philip Kosloski


‘O que é uma paróquia?

Quase todo mundo usa esse termo, mas o que ele significa mesmo?

À medida que o cristianismo ia se estabelecendo firmemente mundo afora, crescia a necessidade de organizar as comunidades cristãs num sistema gerenciável. Essa tarefa ganhou corpo no século IV e foi sendo refinada ao longo das décadas, chegando a um ápice no século XVI com o Concílio de Trento.

Nesse concílio, os bispos foram instruídos a definirem claramente as paróquias e os sacerdotes que exerceriam nelas o seu ministério. Começaram então a ser estabelecidos os limites territoriais específicos de cada paróquia, com base na quantidade de almas presentes em cada região.

pároco ficaria encarregado do cuidado espiritual e sacramental de todas as almas que vivessem dentro daquele território. Se houvesse necessidade, ele contaria com a assistência de mais sacerdotes sob a sua liderança.

O atual Código de Direito Canônico especifica que uma paróquia é ‘uma comunidade de fiéis cristãos constituída de forma estável’ e estabelecida por um bispo. Como regra geral, a paróquia é territorial, ou seja, inclui todos os fiéis cristãos de um determinado território; no entanto, o direito canônico também prevê grupos de cristãos não vinculados por fronteiras territoriais. Isto, na prática, significa que pessoas que residem fora de uma determinada paróquia podem ainda assim pertencer a ela, não obstante a localização.


‘Peregrinos morando ao lado’

A palavra paróquia vem do grego ’paroikía’, que significa algo como ‘casa ao lado’, ‘morada próxima’, ‘morar perto’. Tem relação com o termo ’paroikos’, que quer dizer ‘forasteiro’, ‘estrangeiro’, ‘peregrino em outra terra’, e que aparece nos Atos dos Apóstolos quando Estêvão fala da história dos judeus e os descreve como ‘estrangeiros numa terra que não era a sua’ (cf. Atos 7,6).

Um paroquiano é isso : um ‘peregrino’ que viaja rumo à pátria celestial, e que, acolhido numa paróquia, ou seja, numa ‘morada próxima’, vai compartilhando essa viagem com seus irmãos e vizinhos!

Belíssima imagem para entendermos o conceito, não é?

Mas há mais imagens e metáforas que nos ajudam a descobrir a riqueza e a profundidade do conceito de paróquia.


As paróquias são como barcos

A imagem da barca é muito associada à Igreja, tradicionalmente representada como a ‘Barca de Pedro’. Desta mesma perspectiva, as paróquias são como barcos que levam grupos específicos de almas rumo ao céu. Não parece coincidência, aliás, que a parte mais ampla das igrejas tradicionais se chame ‘nave’ (do latim ‘navis’, ou seja… navio, barco)!

Todo pároco, assim, é o capitão’ de um barco de almas a serem levadas até o porto seguro do céu! Isso não é uma tarefa simples, e é por isso que o padre precisa muito do envolvimento dos paroquianos na condução do barco – além, é claro, do sopro contínuo do Espírito Santo.


Analogias para pôr em prática

Da próxima vez que você for à sua paróquia, lembre-se dessas analogias com a ‘morada próxima’, com a ‘peregrinação’, com o ‘barco’. Essas imagens ajudarão você a entender melhor a tarefa gigantesca do pároco, especialmente quando ele é responsável por 3 ou 4 ‘barcos’ ao mesmo tempo, e, por conseguinte, a compreender melhor a importância da sua própria participação e colaboração ativa como membro dessa tripulação.

Numa paróquia, afinal, somos todos peregrinos a bordo da mesma casa-barco, rumando ao céu!


Fonte :

terça-feira, 15 de agosto de 2017

Assunção de Nossa Senhora - Mãe de Deus

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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‘Hoje, solenemente, celebramos o fato ocorrido na vida de Maria de Nazaré, proclamado como dogma de fé, ou seja, uma verdade doutrinal, pois tem tudo a ver com o mistério da nossa salvação. Assim definiu pelo Papa Pio XII em 1950 através da Constituição Apostólica Munificentissimus Deus : ‘A Imaculada Mãe de Deus, a sempre Virgem Maria, terminado o curso da vida terrestre foi assunta em corpo e alma à glória celestial.

Antes, esta celebração, tanto para a Igreja do Oriente como para o Ocidente, chamava-se ‘Dormição’, porque foi sonho de amor. Até que se chegou ao de ‘Assunção de Nossa Senhora ao Céu’, isto significa que o Senhor reconheceu e recompensou com antecipada glorificação todos os méritos da Mãe, principalmente alcançados em meio às aceitações e oferecimentos das dores.

Maria contava com 50 anos quando Jesus subiu ao Céu. Tinha sofrido muito : as dúvidas do seu esposo, o abandono e pobreza de Belém, o desterro do Egito, a perda prematura do Filho, a separação no princípio do ministério público de Jesus, o ódio e perseguição das autoridades, a Paixão, o Calvário, a morte do Filho e, embora tanto sofrimento, São Bernardo e São Francisco de Sales é quem nos aponta o amor pelo Filho que havia partido como motivo de sua morte.

É probabilíssima, e hoje bastante comum, a crença de a Santíssima Virgem ter morrido antes que se realizasse a dispersão dos Apóstolos e a perseguição de Herodes Agripa, no ano 42 ou 44. Teria então uns 60 anos de idade. A tradição antiga, tanto escrita como arqueológica, localiza a sua morte no Monte Sião, na mesma casa em que seu Filho celebrou os mistérios da Eucaristia e, em seguida, tinha descido o Espírito Santo sobre os Apóstolos.

Não subiu ao Céu, como fez Jesus, com a sua própria virtude e poder, mas foi erguida por graça e privilégio, que Deus lhe concedeu como a Virgem antes do parto, no parto e depois do parto, como a Mãe de Deus.

Nossa Senhora da Assunção, rogai por nós!


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segunda-feira, 14 de agosto de 2017

A fantasia Católica tem uma vantagem

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Escreveu o jesuíta Guy Consolmagno J. em
*Artigo de Raffaela Silipo

‘Superman? ‘Acaba sendo chato’. Nada a ver com Frodo, ‘que pode sofrer e falhar e, no final, triunfar’. Os escritores católicos de ficção científica e romances de fantasia têm uma vantagem, diz Guy J. Consolmagno (cientista jesuíta apaixonado pela ficção científica, aquela que o levou à carreira científica) em ‘La Civiltà Cattolica’. John R.R. Tolkien e Gene Wolfe são os exemplos mais óbvios. Porém, entre os escritores mais amados e conhecidos de ficção científica há ‘insuspeitadamente’ muitos católicos. Por quê? ‘Por exemplo, a concepção católica de uma humanidade pecadora implica a presença de personagens que podem ser amados, mesmo quando cometem erros e se comportam mal’.

O artigo, intitulado ‘A Fantasia e a sensibilidade católica’, que será publicado na próxima edição da revista dos jesuítas, aponta que os escritores católicos têm uma vantagem graças à sua fé, mesmo do ponto de vista narrativo. Além disso, Tolkien argumentou em uma carta a outro jesuíta, Robert Murray, ‘O Senhor dos Anéis é fundamentalmente uma obra religiosa e católica : o elemento religioso está enraizado na história e no simbolismo’.

O Catolicismo neste caso ‘é um conjunto de princípios sobre o universo, para além do que podem dizer os astrônomos. E as boas histórias, muitas vezes vêm a partir do embate entre visões de mundo opostas. Ser católicos em um mundo secular significa viver esta tensão : é um bom caminho’. O desafio é sempre este : a batalha entre o bem e o mal, a batalha pelos sentimentos grandes e nobres, a procura de um sentido último das coisas e, acima de tudo, o desejo de grandeza, ‘promover uma imagem que é grande o suficiente para ser universal’. Neste sentido, o objetivo de escritores católicos parece ser, basicamente, encontrar novas maneiras de falar sobre Deus, mas mantendo-se fieis ao verdadeiro Deus’.’


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domingo, 13 de agosto de 2017

Apelo dos Patriarcas do Oriente ao Papa sobre êxodo dos cristãos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)


‘‘É tempo de lançar um apelo profético como testemunho da verdade. Somos convidados a permanecer apegados a nossa identidade oriental e a permanecer fiéis a nossa missão. Assumindo o cuidado do pequeno rebanho, nós Patriarcas orientais estamos aflitos ao assistir a hemorragia humana dos cristãos que abandonaram suas terras no Oriente Médio.

É uma das passagens mais significativas do comunicado difundido esta sexta-feira pelo Conselho dos Patriarcas Católicos do Oriente ao término da sessão anual realizada em Dimane, no Líbano, sede de verão do Patriarcado maronita, e do qual participou o núncio apostólico no Líbano, Arcebispo Gabriele Giordano Caccia.

Numa sessão ecumênica estiveram presentes também os patriarcas greco-ortodoxo John Yazigi, sírio-ortodoxo Ignazio Efrem II, o catholicos da Igreja apostólica armênia Aram I e o presidente da comunidade evangélica na Síria e no Líbano, Salim Sahyouni.

Permaneçamos radicados na terra dos pais e dos antepassados – é o apelo – esperando contra toda esperança num advir em que, como componentes de um patrimônio autêntico e específico, sejamos compreendidos como fontes de enriquecimento para nossas sociedades e para a Igreja universal no Oriente e no Ocidente.’

Os patriarcas exortam a não deixar de proclamar ‘a verdade na caridade, a legitimidade da separação entre estado e religião na constituição de nossas pátrias, a igualdade de todos face aos direitos e deveres, sem acepção de pertença religiosa ou comunitária’.

Na nota, reportada pelo jornal vaticano L’Osservatore Romano, o Conselho critica a comunidade internacional por assistir, uma após outra, por causa da insegurança e da emigração, a extinção das Igrejas orientais no Iraque, Síria, Palestina, Líbano, Egito, sem que a sua reação seja à altura da tragédia.

Eles dão conta de que, se esse estado de coisas continuar, se tratará de um verdadeiro projeto de genocídio’ e de uma ‘afronta à humanidade.

Pedimos às Nações Unidas e aos países atingidos de modo direto pelos conflitos na região que acabem com as guerras, cujos objetivos se tornaram claros: destruir, matar, impelir ao êxodo, relançar as organizações terroristas, defender o espírito de intolerância e de conflito entre as religiões e as culturas.

A prossecução desta situação e a incapacidade de estabelecer uma paz justa, global e duradoura na região, assegurando o retorno dos refugiados e dos deslocados a suas casas com dignidade e na justiça, permanecerão como um estigma de vergonha para todo o século XXI.

Os patriarcas católicos dirigem-se também ao Papa Francisco : ‘Somos uma nação com largas fronteiras, ou que atraem a atenção dos gigantes das finanças; somos um pequeno rebanho pacífico. Um pequeno rebanho que não conta com nenhum outro que Vossa Santidade para convidar os grandes que presidem os destinos do mundo.

A mensagem coincide com a publicação de cifras eloquentes sobre a diminuição dos cristãos nos vários países do Oriente Próximo, em particular no Iraque, Síria e Terra Santa (onde representam somente 1,2% da população); na Síria, por causa da guerra deflagrada em 2011, o número deles caiu (de 250 mil para 100 mil, segundo estatísticas recentes). No Iraque os representantes da comunidade cristã estão tendo dificuldade para convencer a população do planície de Nínive a voltar para casa.’


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sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Céu, inferno e purgatório à luz do mistério pascal

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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Dante e seus Poemas por Domenico di Michelino (1460)

*Artigo de Geraldo De Mori, SJ


‘A destinação final do ser humano é vista de diversas maneiras pelas religiões e pelas ciências. O cristianismo professa sua esperança na ressurreição dos mortos, baseado na proclamação da ressurreição de Jesus Cristo. Muitas igrejas cristãs, ao rezarem a cada domingo o símbolo dos Apóstolos ou símbolo de Niceia/Constantinopla, dizem crer na ‘ressurreição dos mortos e na vida eterna’ ou dizer crer ‘na ressurreição dos mortos e na vida do mundo que há de vir’. Baseada nessas afirmações do símbolo da fé, a teologia cristã elaborou ao longo dos séculos uma reflexão que deu origem, já nas Sumas medievais, aos artigos dedicados aos ‘novíssimos’ (as coisas novas), que na teologia atual são estudados no tratado de escatologia (as coisas últimas e definitivas).

A sistematização do que tradicionalmente foi chamado de ‘novíssimos’ é o resultado do encontro entre várias ‘representações da vida futura’, muitas delas presentes na Bíblia e outras oriundas das tradições religiosas e filosóficas de outras culturas, dentre as quais a grega. Nos textos mais antigos da Bíblia, a vida era o mais importante. Para realizar-se plenamente, o ser humano tinha que ter saúde, viver uma vida longa, ser bem sucedido do ponto de vista material, ter filhos e ver ‘os filhos dos filhos’ (Sl 128,6). Não havia esperança de uma vida após a morte, embora o Israel antigo não conhecesse a ideia de que com a morte tudo desapareceria. Para eles, os mortos iam para o xeol (Jó 14,13; Sl 6,5; 86,13;139,8; Pr 30,16; Ecl 9,4-6;.10), que era o reino das sombras, mas sobre o qual Deus reinava. Não existia a ideia de que o xeol fosse o domínio de uma força maligna, identificada em outras religiões com o diabo. Tampouco existia a ideia de que havia um paraíso para onde iriam os justos/bons. Deus mostrava, porém, misericórdia para com os justos (até a milésima geração : cf. Dt 5,10) e retribuía com o castigo os que praticavam o mal (até a terceira geração o mal : cf. Dt 5,9).

A crença de que haveria uma retribuição após a morte, com um lugar para os bons e outro para os maus, começou a surgir na literatura apocalíptica judaica, que é representada pelo livro de Daniel e por vários apócrifos (Esdras, Enoque etc.). Em parte, isso foi determinado pela morte dos justos e a constatação de que no mundo nem sempre eles eram devidamente retribuídos e os maus devidamente castigados. O capítulo 12 de Daniel é emblemático a esse respeito, pois fala que os mortos ‘acordarão’, alguns para a ‘vida eterna’ e outros para o ‘desprezo eterno’ (v. 2). O capítulo 7 do segundo livro dos Macabeus também atesta a fé na ressurreição (v. 28-29).

O Novo Testamento mostra a duas perspectivas acima elencadas : a dos saduceus, para os quais não haveria ressurreição, e a dos fariseus, que nela criam (Mt 22,23-33). Aparece também a crença de um lugar para os bons (o ‘seio de Abraão’, em Lc 16,22) e um lugar para os maus (o ‘inferno’, em Lc 16,23). O lugar para os maus é denominado também ‘geena’, e ganha traços terríveis nos discursos de Jesus : lugar onde haveria ‘choro e ranger de dentes’, com ‘vermes’, ‘corrupção’ (Mt 5,22.30; 10,28; 18,9; 23,15.33 etc.). O termo ‘paraíso’ ocorre uma única vez na boca de Jesus, quando ele o promete ao bom ladrão arrependido na cruz (Lc 23,43). Jesus fala, porém, do reino de Deus como algo futuro, lugar de festa e banquete (Mt 22,1-14; Lc 14,15-24). Além da ideia de ‘lugares’ para onde iriam os mortos, os textos do Novo Testamento falam ainda que Jesus ressuscitou dos mortos e apareceu a vários discípulos (1Cor 15,5s), e fundamentam nossa ressurreição na sua ressurreição, com longa reflexão sobre como ela seria (1Cor 15,12-58). Os principais textos que falam de nossa ressurreição a associam à segunda vinda de Cristo, o ‘dia do Senhor’ (1Ts 4,13-18; 1Cor 15,23-27).

Com base nesses textos e nessas ‘representações’ da vida futura, a pregação cristã e a teologia foram elaborando, em diálogo com a filosofia grega, o que, na Idade Média, foi chamado de novíssimos : céu e inferno. Em parte, essa reflexão constituiu-se como ‘topografia do além’, determinada pelas categorias a partir das quais conhecemos : espaço e tempo. O ‘mundo futuro’ tornou-se uma espécie de reprodução, mais perfeita e plena, chamada ‘céu’ ou ‘paraíso’, ou imperfeita e falha, denominada ‘inferno’. Além desses dois ‘lugares’, pouco a pouco foi surgindo um terceiro, o ‘purgatório’. Em parte, isso se deve ao dualismo antropológico grego, que via o ser humano como a conjunção de corpo (perecível) e alma (imperecível), e em parte, ao ‘atraso da parusia’, que levantava a questão do que acontecia com os fiéis que haviam dado testemunho do Cristo antes de sua segunda vinda. A crença de que no dia juízo tudo deveria ser ‘revelado’, passando pelo fogo (1Cor 3,13-15), e a prática da oração pelos ‘fiéis defuntos’, levou à elaboração da teologia do purgatório. Com a Divina comédia, de Dante, na Idade Média, e as pregações da Igreja visando à conversão, essa representação do além se popularizou, tendo ainda grande importância na linguagem.

A nova visão do mundo, dada pelas descobertas das ciências modernas, mostrou, porém, que não se pode mais pensar a esperança na ressurreição ou a ‘vida futura’ ou no ‘além’, com as categorias do nosso mundo (espaço e tempo). É difícil pensar fora do tempo e do espaço, mas isso não significa que não o possamos fazer. O único lugar para pensar isso é o próprio mistério pascal de Cristo, sua cruz e ressurreição.

Como fazê-lo? Vendo como Jesus morreu. Podemos dizer que na Cruz, Jesus nos diz primeiro o que é o inferno. Ao clamar em voz forte ‘meu Deus, meu Deus, por que me abandonastes?’ (Mt 27,46), ele nos diz que o inferno é a separação radical da fonte de sentido, que é o Pai, o não sentir-se amparado por ele, ver a vida aniquilar-se no nada. Essa frustração radical e total da existência é a não realização da vocação à filiação, inscrita na criação do ser humano à imagem e semelhança de Deus. Alguns autores pensam que Jesus fez essa experiência para que ninguém a fizesse depois dele. Outros dizem que a possibilidade do inferno é a condição de possibilidade da liberdade, ou seja, Deus nos cria para sermos filhos (as), mas não nos obriga à filiação. Por isso, a possibilidade da frustração radical da existência, que é viver fora do sentido, que é Deus. De qualquer forma, a cruz é a revelação do mal por excelência, presente na condenação do justo, e a revelação da vitória sobre este mal, pois é a expressão do dom de si de Jesus por amor até o fim, em fidelidade ao Pai. Essa fidelidade pode ser vista também como confiança, e aí aparece a experiência da vitória sobre a frustração. Nas palavras : ‘Pai, nas tuas mãos entrego o meu espírito’ (Lc 23,46), Jesus mantém-se fiel àquilo que ele acreditou durante toda a vida, na ‘noite mais escura’ dos sentidos, pois aí Deus parecia ter-se ausentado. Nesta fé-confiança encontra-se o que poderíamos chamar ‘céu’, pois o céu é encontrar sentido e sentido último e definitivo para a existência, mesmo quando ela parece não ter sentido.

Perseverar na apelação filial, eis o caminho revelado por Jesus diante do nada da morte injusta que lhe foi impingida. A passagem pelo abandono pode ser vista como ‘purgatório’, ou seja, a prova final pela qual passou Jesus, e pela qual todos passamos. No fundo, diante do ‘nada’ para o qual a morte parece conduzir, e que pode ser identificado com o ‘inferno’, a fé, feita de provação, de ‘purgatório’, nos diz que a perseverança na fé-confiança é possível, e nos leva ao ‘céu’. Toda essa experiência da cruz não é feita apenas entre Jesus e o Pai. O Espírito Santo aí está, levando Jesus ao supremo despojamento, à ‘noite escura da alma’ do abandono, do inferno, arrancando-o, pelo purgatório, para o céu da fé-confiança. Nossa morte, na perspectiva cristã, também é chamada a ser vivida na perspectiva aberta por Jesus. Pela fé-confiança, passando ‘pelo vale tenebroso do abandono’, somos chamados a abandonar-nos nos braços do Pai, como o fez Jesus, movidos pela força do Espírito Santo.’


Fonte :


terça-feira, 8 de agosto de 2017

Reflexões sobre o livro AS PERIPÉCIAS DE JENNIFER, de Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 
 *Artigo de Manoel Cardoso

Livro que instiga inicialmente a curiosidade do leitor, pois tem como um dos protagonistas um murídeo, através do recurso literário, personificação (age como ser humano). Não é muito comum as narrativas utilizarem animais em seus contextos, a não ser nos Contos de Fadas e em textos destinadas às crianças.  Recorda-se que nos tempos atuais, depois da segunda metade do século XX, apenas dois livros de maior destaque foram lançados empregando esse recurso : Fernão Capelo Gaivota, de Richard Bach, e Cândido Urbano Urubu, de Carlos Eduardo Novaes. Dom João Baptista pode inscrever seu livro nesse cenário de simbologia, que prende muito o leitor, cuja curiosidade é despertada, pois uma Ratinha, de nome Jennifer, participará de todos as peripécias da obra, através da investigação, do abandono familiar, da busca da luz, fugindo das trevas de sua profunda cova.



O Autor, portador de invejável cultura, senhor de mil atributos, intima o leitor a participar das peripécias desse pequeno roedor, toma-o pela mão e vai conduzindo-o do jardim à intimidade de um mosteiro que tão poucos conhecem, em profundidade. E travestido como um pequeno murídeo, o leitor penetra na fundura daquele mundo, capela, refeitório, biblioteca, cela, pois a curiosidade se aguça à medida que a narrativa se desenrola. Soma-se a Jennifer e convive mais tempo junto ao protagonista, na biblioteca, seu espaço de atividade, e em todos os demais lugares pelos quais transita o narrador.

Quando o leitor quase está certo de que o espaço da narrativa é um Mosteiro Brasileiro, no capítulo VII, experimenta grande surpresa, ao constatar que o espaço real é a Abadia de São Miguel, na Áustria, onde predomina a arte barroca com toda a sua riqueza arquitetônica, em voga no século XVIII... E a narrativa se faz grande, através das informações sobre o mundo sombrio, em aparência, e luminoso na realidade, de um mosteiro.  O leitor segue os passos do narrador e de Jennifer, inteira-se das atividades diárias, do trabalho do bibliotecário, do encarregado da cozinha, da horta e dos passos essenciais à espiritualidade, necessários ao ingresso na Ordem.

O leitor é ainda seduzido pela rica cultura revelada, pelas armadilhas que se lançam, através de uma narração dinâmica, de um vocabulário erudito, mas plausível, e pelo profundo conhecimento de todos os recantos de uma Abadia, espaço da obra, e onde se desenrola a vida monástica.

Aplausos ao autor que se inaugura num patamar bem alto no mundo da literatura. 

domingo, 6 de agosto de 2017

Discípulos para acolher ou para excluir?

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

 Imagem relacionada
*Artigo do Padre Olmes Milani,
Missionário Scalabriniano


‘Um idoso e calmo missionário viajava de trem até o local onde participaria de uma reunião de pastoral de sua Diocese no Japão. Estava ele num dos assentos reservados para pessoas idosas, deficientes ou gestantes, quando, numa estação, embarcou um jovem que se dirigiu, autoritariamente, ao missionário dizendo-lhe : ‘Você é estrangeiro! Levante-se porque eu sou japonês e tenho direito a este lugar’. ‘Sim, você deve estar mal. Sente-se. Eu viajo de pé,’ disse humildemente o missionário.

Situações como essas chocam, especialmente os imigrantes, dando a ideia de que são excluídos dos direitos de que os cidadãos locais gozam. Pode-se imaginar a dor impressa no semblante do missionário diante da exclusão provocada pelo jovem autoritário e arrogante.

Os conflitos entre quem era de seu grupo e quem era de fora provocaram intervenções firmes de Cristo, em diversas ocasiões. Curiosamente, as tentativas de exclusão partiram de pessoas do grupo de apóstolos e discípulos. Não se sabe se por zelo de ter a Cristo como Mestre ou por esperar uma oportunidade, quando Ele estivesse no seu Reino. Com certeza esta última falava muito forte no grupo dos doze.

É significativo o fato narrado pelo Evangelista Lucas (Lc 18,15-17). Algumas pessoas levavam suas crianças a Cristo para que Ele as tocasse. Diante disso, eis que os discípulos, por iniciativa própria, começaram a repreender aquele grupo de pais, na tentativa de afastá-los. Cristo não só concedeu espaço físico às criancinhas, abraçando-as, carinhosamente, mas elevou-as até o mais alto grau, talvez o pretendido pelos dois irmãos que queriam estar um à sua direita e outro à esquerda : ‘Deixem as crianças virem a mim. Não lhes proíbam, porque o reino dos Céus pertence a elas’. Embora, frágeis, Ele as valorizou a ponto que os adultos devem ser como elas. ‘Eu garanto a vocês que quem não receber como criança o Reino de Deus, nunca entrará nele’.

 Dramática também é a cena da mulher Cananéia, a estrangeira, narrada por Mateus 15:21-28, suplicando-lhe ajuda, angustiadamente, por causa da doença da filha. Cristo assumiu a atitude do diálogo e de dar tempo ao tempo, como fez com a mulher samaritana e na conversa com Nicodemos, como meios de amadurecimento na fé. Os membros do grupo fechado dos discípulos entraram em ação, autoritariamente, para solucionar o ‘problema’. ‘Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós’. Ignorando a voz deles, Jesus continuou o diálogo sério e respeitoso com a mulher que revelou sua grande fé, que lhe permitiu voltar para a casa e encontrar sua filha curada. Assim ela encontrou a porta aberta para participar da mesa junto com os filhos de Israel.

Não nos cabe o direito de julgar os discípulos pelas suas palavras e gestos, no sentido de impedir que Jesus fosse perturbado pelas brincadeiras das crianças ou pelos autores do pedido para afastar uma mulher em desespero diante da grave situação de sua filha. Contudo, eles nos dão uma excelente oportunidade para questionar nossa atitude com os recém-chegados em nossas comunidades. Quase todas elas têm seus coordenadores. Em algumas são eleitos, em outras são nomeados; não faltam os autopromovidos. É muito comum perceber que se perpetuam no cargo e dão à comunidade um rumo pessoal, longe do modelo de Cristo. Por isso, ao inteirar-se de alguma iniciativa de alguém que não de seu clube, assumem o direito de transmitir ordens como se fossem emanadas do padre da paróquia. Ouve-se amiúde, ‘Não podemos fazer assim esta atividade porque o padre não quer’. Na verdade, está comunicando que elas não querem, usando o nome do padre. Assim, as oportunidades de envolvimento são para as pessoas de sua simpatia ou religiosidade, excluindo os diferentes ou aqueles que podem ameaçar sua posição. Já houve casos em que a celebração dominical foi atrasada porque alguém, do grupo fechado da pessoa coordenadora, não chegava para fazer uma das leituras, enquanto na igreja havia diversas que, pela primeira vez, poderiam ser convidadas para exercer esse ministério com eficiência.

Um dos perigos das comunidades é o fechamento do pequeno grupo de amigos que as insensibiliza diante das angústias das pessoas de fora ou que se aproximam pela primeira vez, ou não são cristãos da mesma linha religiosa. Com atitudes ou mesmo com palavras podem estar atualizando a expressão : ‘Manda-a embora, pois vem gritando atrás de nós’.

Este tipo de grupo tende a fechar-se sobre si ao mesmo tempo em que se fecha às orientações pastorais das dioceses. Seus mentores citam seguidamente o Papa em suas conversas, não para seguir suas orientações, mas justificar sua religiosidade.

Não raramente, manipulam a Bíblia e os ensinamentos da Igreja, geralmente, extraindo algumas frases isoladas como muleta para seu grupo, mas evitam ter uma visão abrangente da doutrina. Na prática, tal atitude filtra as pessoas, permitindo a aproximação de quem comunga com suas visões parciais em contraposição ao ‘Deixem vir a mim as crianças...’ de Cristo. São como o pedágio seletor. Fácil é entender que Cristo ama muito mais os que são impedidos de chegar a Ele.

Quando as pessoas se transformam em donas exclusivas da verdade, dogmáticas, radicais e moralistas, o prejuízo para a construção de comunidades dinâmicas é enorme, especialmente para a pequena Igreja no Japão, por exemplo, que necessita abrir-se e acolher. Pretendem empobrecer o Espírito Santo, limitando-O ao ‘dom de falar em línguas’ e mais algum. Daí a grande resistência de ler e meditar a 1ª. Cor 14,1-35, sobre as línguas e 1 Cor 12 sobre os muitos dons presentes no Povo de Deus. Herodes ficou preocupado ao saber que havia nascido um Rei em seu território. O medo era ser destronado. Será que os muitos ‘discípulos’ não estariam impedindo que os recém-chegados assumam algum ministério, nas comunidades, por medo de perder seus lugares?

Hoje é notória a existência de uma oferta exuberante de religião e de movimentos religiosos de todo tipo e gosto, tanto sob o guarda-chuva da Igreja Católica como de outras denominações cristãs. Cada dia surgem grupos novos, ‘comunidades’ e movimentos autoproclamando-se como os melhores e os mais ortodoxos. Com frequência esses grupos de ‘discípulos’ se atribuem erroneamente o título de ‘missionários’ e porta-vozes da Igreja. Considerando o mandato de Cristo, o missionário é seu enviado para anunciar a Boa Nova a toda criatura, sendo instrumento de Deus na construção do Reino. Na verdade, o que se vê é uma preocupação ardorosa de propagar e atrair pessoas, cada um para seu próprio grupo, linha religiosa ou movimento, desconsiderando o anúncio a toda criatura tão desejado por Cristo com a finalidade de construir o Reino de Deus.

Nem tudo é tenebroso quando falamos de discípulos. São milhares aqueles e aquelas que se engajam com denodo ao anúncio da Boa Nova, acolhendo a todas as pessoas de forma livre e desinteressada, traduzindo o amor em obras com a visão voltada para a construção do Reino. Um exemplo maravilhoso é um velhinho e simpático sacerdote japonês que, nas dependências de sua igreja acolhe alcóolatras, dependentes químicos e excluídos de qualquer nacionalidade. Certamente as palavras de Cristo : ‘Venham vocês, que são abençoados de meu Pai. Recebam em herança o Reino que meu Pai lhes preparou desde a criação do mundo’ (Mt25, 34) serão dirigidas para esses discípulos verdadeiros.’


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