sexta-feira, 7 de abril de 2017

A Quaresma, viagem para a Páscoa

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo do Padre Alexander Schmemann, 
teólogo e sacerdote cristão ortodoxo
(13.09.1921 – 13.12.1983)


‘Quando um homem parte em viagem, deve saber para onde vai. Da mesma forma com a Quaresma. Antes de tudo, a Quaresma é uma viagem espiritual e seu destino é a Páscoa, a «Festa das Festas». É a preparação à «realização da Páscoa figurativa, a verdadeira Revelação». Devemos então começar por tentar compreender esta relação entre Quaresma e Páscoa, pois ela revela algo de muito essencial, crucial, no tocante a nossa fé e a nossa vida cristã.

E necessário explicar que a Páscoa é muito mais do que uma Festa entre as festas, muito mais do que uma comemoração anual de um acontecimento passado? Quem quer que tenha participado, ainda que uma única vez, desta noite «mais luminosa de que o dia», quem quer que tenha provado esta alegria única sabe-o bem. Mas de onde vem esta alegria? E porque podemos cantar, como fazemos na liturgia pascal : «Hoje, todas as coisas estão repletas de luz, o Céu, a Terra e os infernos»? Em que sentido celebramos, como pretendemos celebrar, «a morte da morte, a destruição do inferno, o início de uma vida nova e eterna»? A todas estas perguntas, a resposta é a seguinte : A vida nova que, há quase 2.000 anos, jorrou do túmulo, foi dada a nós, a todos nós que cremos em Cristo. E ela nos foi dada no dia do nosso batismo onde, como diz São Paulo, «fomos sepultados com Cristo na morte; para que, como Cristo ressuscitou dos mortos, assim andemos nós também em novidade de vida »(Rm 6,4)

Assim, celebramos na Páscoa a Ressurreição de Cristo como algo que aconteceu e que ainda nos acontece. Pois cada um de nós recebeu o dom desta vida nova e faculdade de acolhê-la e vivê-la. E um dom que muda radicalmente nossa atitude em relação a todas as coisas deste mundo, inclusive a morte, e que nos dá o poder de afirmar alegremente : «A morte não existe mais!» Certamente a morte ainda está ai, nós ainda a enfrentamos e um dia ela virá nos buscar. Porém aí reside toda nossa fé; por sua própria morte, Cristo mudou a natureza da morte, fez dela uma passagem, uma páscoa, uma «pascha» para o Reino de Deus, transformando a tragédia das tragédias em vitória suprema. «Esmagando a morte pela morte», ele nos tornou participantes de sua ressurreição. É por isso que no fim das Matinas de Páscoa, dizemos : «Cristo ressuscitou, e eis a vida que governa! Cristo ressuscitou, e nenhum morto permaneceu no túmulo».

Esta é a fé da Igreja, afirmada e formada evidente por seus inumeráveis santos. E entretanto será que não provamos diariamente que esta fé é raramente a nossa, que sempre perdemos e traímos a vida nova que recebemos como dom e que, na verdade, vivemos como se Cristo não houvesse ressuscitado dos mortos, como se este acontecimento único não tivesse o menor significado para nós? Tudo isso por causa de nossa fraqueza, por causa da nossa impossibilidade de viver constantemente de fé, de esperança e caridade, no nível a que Cristo nos elevou quando disse : «Buscai antes de tudo o Reino de Deus e sua justiça». Nós simplesmente esquecemos, de tanto que estamos ocupados, imersos em nossas ocupações cotidianas, e, porque esquecemos, sucumbimos. E por esse esquecimento, esta queda e este pecado, nossa vida volta a ser «velha’, mesquinha, escurecida e finalmente desprovida de sentido; uma viagem desprovida de sentido em direção a um fim sem significado. Fazemos tudo para esquecer a própria morte, e eis que de repente, no meio de nossa vida tão agradável, ela está lá diante de nós, horrível, inevitável, absurda. Até podemos, de vez em quando, reconhecer e confessar nossos diversos pecados, mas sem por isso relacionar nossa vida àquela vida nova que Cristo nos revela e nos deu. Na verdade, vivemos como se Ele jamais tivesse vindo. Este é o único verdadeiro pecado, o pecado de todos os pecados, a tristeza insondável e a tragédia de nosso Cristianismo, que só o é de nome.

Se tomamos consciência disto, então podemos compreender o que a realidade da Páscoa recobre e porque ela necessita e pressupõe a Quaresma. Pois então podemos compreender que as tradições litúrgicas da Igreja, todos seus ciclos e ofícios, são feitos antes de tudo para nos ajudar a recobrar a visão e o gosto desta vida nova, que perdemos e traímos tão facilmente, e assim poderemos nos arrepender e voltar a esta vida. Como poderíamos amar e desejar algo que não conhecêssemos? Como colocar acima de tudo, em nossa vida, algo que não vimos e não provamos? Em suma, como poderíamos procurar um Reino de que não tivéssemos a menor idéia?

É a liturgia da Igreja que, desde o começo e ainda hoje, nos introduz, nos faz comungar a vida nova do Reino. É através de sua vida litúrgica que a Igreja nos revela algo daquilo que «o ouvido não ouviu, o olho não viu e que não subiu ao coração do homem, mas que Deus preparou para aqueles que 0 amam». E no centro desta vida litúrgica, como seu coração e seu ápice, como o sol cujos raios penetram por toda a parte, encontra-se a Páscoa. E a porta aberta a cada ano ao esplendor do Reino de Cristo, a antecipação do Júbilo eterno que nos espera, a glória da vitória que — desde já — ainda que invisivelmente, preenche toda a oração : «A morte não mais existe! Toda a liturgia da Igreja é ordenada ao redor da Páscoa, e, assim, o ano litúrgico, isto é, a sucessão de estações e festas, torna-se uma viagem, uma peregrinação para a Páscoa, para o «Fim» que é ao mesmo tempo o «Começo» : fim do que é velho, começo da vida nova, uma «passagem» constante «deste mundo» para o Reino já revelado em Cristo».

E, entretanto, a vida «velha», a vida de pecado e mesquinharia, não é facilmente vencida e transformada. O Evangelho espera e exige do homem um esforço de que ele é, em seu estado atual, virtualmente incapaz. Somos colocados perante um objetivo, um modo de vida que estão tão além de nossas possibilidades! Os próprios apóstolos, quando ouviram o ensinamento de seu Senhor, perguntaram-lhe, desesperados : «Como isso é possível?» Não é fácil, realmente, rejeitar um ideal mesquinho de vida, perto de preocupações cotidianas, de busca de bens materiais, de segurança e prazer, por um ideal de vida cujo objetivo exclui tudo o que está aquém da perfeição : «Sê perfeitos como vosso Pai celeste é perfeito».

Este mundo diz por todos seus meios de comunicação : «Sejam felizes, não se preocupem, tomem a via larga». Ora, Cristo diz o Evangelho. «Escolhei a via estreita, combatei e sofrei, pois é o caminho da única felicidade verdadeira». Sem o socorro da Igreja, como podemos fazer esta escolha terrível, como podemos nos arrepender e retornar à gloriosa Promessa que nos é dada a cada ano na Páscoa? É aqui que intervêm a Quaresma. É o socorro que nos oferece a Igreja, escola de arrependimento que, somente ela, nos tornará possível acolher a Páscoa não como uma simples permissão de comer, beber e se divertir, mas verdadeiramente como o fim daquilo que é «velho» em nós, como nossa entrada no «novo».

Na Igreja primitiva, o principal objetivo da Quaresma era preparar ao batismo os catecúmenos, isto é, os Cristãos recém-convertidos, em um tempo em que o batismo era ministrado durante a liturgia pascal. Entretanto, mesmo quando a Igreja não batizava mais adultos e a instituição do catecumenato tinha desaparecido, o sentido da Quaresma permaneceu o mesmo. Pois, apesar de sermos batizados, o que perdemos e traímos constantemente é precisamente o que recebemos no batismo. É por isso que a Páscoa é nosso retorno anual a nosso próprio batismo, enquanto que a Quaresma é a preparação a este retorno, o esforço lento e resistente para, finalmente, realizar nossa própria «passagem» ou «Páscoa» na nova Vida em Cristo. E se, como veremos, a liturgia de Quaresma conserva ainda hoje seu caráter catequético e batismal, não é como um resto arqueológico do passado, mas como algo de valioso e essencial para nós. Pois, a cada ano, a Quaresma e a Páscoa nos fazem redescobrir uma vez mais e recobrar aquilo que a passagem batismal através da morte e da ressurreição havia operado em nós.

Uma viagem. Uma peregrinação. E, ao empreendê-la, já desde o primeiro passo na «radiosa tristeza» da Quaresma, percebemos ao longe, bem longe, o destino a alegria da Páscoa, a entrada na glória do Reino. E é esta visão, o gosto antecipado da Páscoa, que torna radiosa a tristeza da Quaresma e que faz de nosso esforço na Quaresma «primavera espiritual». A noite pode ser longa e sombria; mas, ao longo do caminho, uma aurora misteriosa e luminosa desponta no horizonte. «Não desaponte nossa espera, ó Amigo do Homem!»’


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