quinta-feira, 20 de abril de 2017

Viver ressuscitados

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo de Bernardino Frutuoso,
Jornalista


‘Celebramos o mistério salvífico da paixão, morte e ressurreição de Jesus. Tempo privilegiado em que fazemos memória viva do amor incondicional e libertador de Jesus de Nazaré. Ele é condenado à morte depois de um processo político-religioso e, na lógica do dom, aceita morrer na cruz, como um excluído. Mas esse madeiro, paradoxalmente, deixa de ser símbolo de derrota, fraqueza e morte e converte-se num kairós, um sinal de vida que remete ao futuro. Deus, contrariando a vitória fatal que a morte parece ter na História, em fidelidade à aliança de amor com a humanidade, ressuscita o crucificado.

Na pessoa de Jesus Cristo e na sua ressurreição triunfa o princípio da vida e todas as virtualidades escondidas no ser humano explodiram e implodiram numa surpreendente e absoluta realização. Como declara São Paulo (1Cor 15, 45), Jesus é o «novo Adão», Senhor da História, e a sua ressurreição toca tudo e todos. A humanidade, a Terra e o próprio Universo são transfigurados. Assim, os crentes afirmamos com fé e esperança cristãs que morremos para viver mais, melhor e para sempre, percebendo que «a morte é a curva da estrada, morrer é só não ser visto», como expressa belamente Fernando Pessoa.

A ressurreição, fundamento central da fé cristã, no entanto, não é só um assunto escatológico, uma esperança futura; irrompe na nossa história e impele-nos a aceitar Jesus e a configurar-nos com Ele no hoje do nosso quotidiano. É o crucificado-ressuscitado quem nos indica esse caminho de metanóia. Apresenta-se e convive com as mulheres e homens seus seguidores, aquece o seu coração com a sua proximidade, palavras e gestos. Essa experiência de amor pós-pascal confirma os discípulos na fé e dá-lhes força para assimilar a boa notícia de Jesus. Partem, por isso, em missão, anunciando o Reino da Vida a todos os povos da Terra e, por essa esperança invencível na ressurreição, sem a qual a nossa fé seria vã, são perseguidos e martirizados.

Ser cristão é acolher o Espírito do ressuscitado e peregrinar, no aqui e agora da História, como audazes e alegres discípulos missionários. Se vivemos no coração de Deus, estamos chamados como Jesus a entregar a vida como um dom e a continuar o seu projeto, comprometendo-nos ativamente em favor do bem, a fraternidade, o amor, a justiça, a misericórdia, a solidariedade, a dignidade, a verdade, o belo... Ajudando Deus a construir um mundo melhor, defendendo a vida dos mais débeis, os crucificados de hoje. Essa é a mística que mobiliza Etty Hillesum, jovem holandesa de origem judaica, que durante o domínio nazi se oferece para trabalhar no campo de trânsito dos judeus de Westerbork, nos Países Baixos – em 1943 é deportada para Auschwitz e morre nesse ano com 29 anos. Essa mulher, de espiritualidade profunda, que descobre Deus no mais íntimo do seu ser e assume a sua causa : «E, quase a cada batida do coração, torna-se isto mais nítido : que tu não nos podes ajudar, que nós devemos ajudar-te» (12 de Julho de 1942). Ser cristão é ser testemunha da ressurreição, assumindo o estilo de Jesus, percebendo a humanidade como lugar de exigência de amor, e em cada pessoa – como afirmava Etty em 15 de Setembro de 1942 – amar um pedaço de Deus.’


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