sexta-feira, 19 de maio de 2017

Santa Hildegard : mulher moderna e inspirada

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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Segundo registros, Hildegard foi quem começou a utilizar o lúpulo na cerveja, principalmente com o intuito de conservação.


‘Pode uma freira de clausura do século XII, mística, inspirada por visões, ainda ter algo a dizer aos homens e mulheres do século XXI, tão ocupados, tecnológicos, aparentemente tão distantes das realidades ultraterrenas e daquele mundo simbólico?

O autor deste livro, insigne estudioso, não tem dúvida : a resposta é positiva, aliás, Hildegard parece ter antecipado algumas declarações do Concílio Vaticano II e, certamente, apesar de ser uma mulher do seu tempo, continua sendo moderna e atual.

Mas quem foi Santa Hildegard de Bingen, proclamada Doutora da Igreja pelo Papa Bento XVI em 2012, uma honra que compartilha com Santa Teresa de Ávila, Santa Catarina de Siena e Santa Teresa de Lisieux?


A Vida da ‘Sibila Renana’

Hildegard nasceu em 1098, na Renânia, décima filha de Hildepert e Machtilde. Aos oito anos de idade entrou no mosteiro beneditino de Disibodenberg, e desde criança começou a ter visões, que ocorriam em estado de consciência, nada de êxtases ou transes, apenas ela sentia e percebia essas visões permanecendo em si, mesmo que se sentisse transportada para uma atmosfera diferente, em um estado de espírito semelhante ao de São Paulo, quando ele ascendeu ao terceiro céu. Percebia uma vívida luz, que lhe inspirava alegria e bem-estar e lhe permitia compreender os textos sagrados e as vozes do céu, embora pareça que as visões também estivessem ligadas ao fenômeno das frequentes doenças da santa.

Aos trinta e oito anos, tornou-se abadessa e a partir deste momento começou a registrar por escrito o que lhe era revelado, como tinha sido solicitado lá de cima.

É dessa forma que nasceram suas três grandes obras : Scivias (Sci-Vias, conheça as vias); Liber vitae meritorum que trata dos vícios e das virtudes que ocupam os corações dos homens, e Liber divinorum operum, considerada a sua obra-prima, centrada no homem ápice da criação e com a qual ficou envolvida por cerca de dez anos.

Em 1150, depois de muitas dificuldades, fundou um mosteiro em Bingen, em homenagem a São Rupert, lugar que logo atraiu muitas freiras e numerosos fiéis. A fama de Hildegard, chamada de ‘profetisa teutônica’ e de ‘Sibila renana’ rapidamente se espalhou. Apesar da saúde precária, a abadessa também realizou algumas viagens fora do mosteiro, durante as quais proferiu inflamados discursos ouvidos por grandes audiências em igrejas e praças. Se por um lado ela instava espiritualmente e lembrava a misericórdia de Deus, pelo outro não excluía ásperas repreensões e vívidas chamadas para a conversão.

Hildegard teve, pelos padrões de sua época, uma vida longa e ativa, e morreu em 1179. Não se dedicou apenas à escrita de seus principais livros, mas também trocou correspondências com reis, imperadores (Frederico Barbarossa, ao qual enviou severas advertências), papas, membros da Igreja, irmãs e homens de poder.

Mulher de caráter excepcional, não deixou de cobrar especialmente aos homens da Igreja os seus deveres, tinha a coragem de se expressar de forma bem clara nas cartas e externar o seu pensamento, fato que, para uma mulher daquela época, era bastante significativo. Mesmo não tendo uma cultura enorme (ela negava a sua preparação, mas tinha uma boa base cultural), Hildegard interessou-se por muitas disciplinas: medicina e farmacologia, música (compôs hinos e orações que depois eram cantados por suas freiras), ciências naturais, foi uma ‘mística que raciocina’, como afirma o autor deste ensaio, uma forte e surpreendente personalidade, que por muito tempo permaneceu pouco conhecida de todos nós.

Hildegard von Bingen - Ave generosa


A recente biografia teológica

Em relação ao ensaio de Frosini, trata-se de uma biografia teológica, que, portanto, apresenta a vida da santa e a contextualiza no seu tempo e na sua cultura e, em seguida, analisa de forma muito precisa - eu diria mesmo didática – o seu pensamento ponto por ponto, como em um tratado de teologia. Começa, portanto, com uma análise das obras e das visões e prossegue com o problema de Deus, a cristologia, a teologia da criação, o problema do homem, o mistério da Igreja, a escatologia e conclui com uma catequese de 8 de setembro de 2010 de Bento XVI sobre Hildegard.

O autor é muito claro nas explicações, cuidadoso, culto e apaixonado; a partir de suas páginas percebe-se imediatamente que ele consegue ‘imaginar’ a santa na sua época e interpretar o seu pensamento. Hildegard foi uma mulher inspirada, devota e sábia, foi moderna em virtude de muitas das suas observações teológicas: por ter colocado sempre a atenção no homem em sua totalidade, nos seus vários aspectos; por sua devoção cristológica (Cristo no centro de tudo); por suas reflexões sobre o Espírito Santo; por sua posição em relação aos Cátaros, que contrastava, mas que considerava que não deveriam ser exterminados; pelas reflexões sobre a natureza e o cosmos, que tem em si a luz divina e, portanto, é digno de ser respeitado e amado como teofania divina (não estamos muito distantes do problema ecológico).

Sem dúvida, também tinha ideias próprias de seu tempo, antigas (o próprio fato de ter entrado para um convento aos oito anos de idade é, para nós, inconcebível), mas é inevitável. Podemos dizer que os textos Hildegard são boas catequeses, cheias de bom senso. ‘Em geral, fica a impressão de que, para ela, a teologia poderia parar nas suas afirmações fundamentais (ou seja, disponíveis ao entendimento de todos), apenas o bastante para impostar com seriedade a vida com base em convicções bem fundamentadas, deixando para os outros, para os especialistas profissionais, a tarefa de aprofundar mais a reflexão. Uma teologia para a vida e não para si mesma, entendida e experimentada como um meio e não como um fim’.


Espírito profético

O autor reconhece a ela um espírito profético, no sentido que o profeta é alguém que fala em nome de Deus, que interpreta o presente com base na Palavra de Deus, ou, nas palavras de Karl Barth, ‘aquele que segura nas mãos o evangelho e o jornal’.

Hildegard teve este grande dom e soube valorizá-lo, e ele inspirou-lhe uma grande fé, um grande amor por Cristo e pela sua Igreja, que ela queria pura e irrepreensível. A sua figura ajuda a mostrar como o século XII, a chamada Idade Média, não tenha sido de todo um período obscuro, mas sim uma época repleta de cultura, iniciativas e personalidades brilhantes, que discutiam e refletiam sobre Deus, sobre o mundo e sobre o homem.

Certamente os textos de Hildegard não são de fácil leitura e, muito menos, interpretação, já que se trata de visões (algumas realmente fascinantes e ricas em símbolos); reconstruir de forma ordenada o pensamento da santa não deve ter sido uma tarefa fácil e isso aumenta o crédito de Frosini, que realmente realizou uma grande obra.

           
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