quarta-feira, 19 de julho de 2017

China : Exército de terracota de Xian

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)
  
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‘Em 1974, um grupo de agricultores começou a escavar um poço à procura de água em Xian, no distrito de Lintong, da província de Shaanxi, a 1200 quilômetros de Pequim, na China. Depararam, então, com uma imensidão de esculturas de terracota que formavam um exército em coluna nas proximidades do mausoléu do primeiro imperador da China, Qin Shi Huang.

As escavações que se seguiram, e que ainda decorrem, desenterraram, até ao presente, 8.099 guerreiros, 670 cavalos, 130 carruagens e armas. As figuras formam filas em três trincheiras. Os soldados variam em altura de acordo com as suas funções, de 1,72 a 2 metros, sendo os generais os mais altos. Todos são retratados em poses naturais e portam armas correspondentes, como lanças, arcos ou espadas de bronze. As armas são reais. Acredita-se que tenham sido feitas antes de 228 a. C. e usadas na guerra. As carruagens são recriadas com grande precisão.

Outras esculturas de terracota não militares foram encontradas noutras valas e representam funcionários, acrobatas e músicos.


Às ordens do imperador

O imperador Qin Shi Huang (260 a. C.-210 a. C.) foi o unificador dos reinos chineses e iniciador da primeira dinastia imperial da China, no ano 221 antes de Cristo. Caracterizou-se por um reinado despótico e sobreviveu a três tentativas de homicídio.

No seu governo, mandou publicar um código penal severo, ordenou obras grandiosas, como o reforço de uma parte da Grande Muralha, a abertura de novas estradas, a construção de palácios e a criação de sistemas de irrigação, e unificou pesos, medidas e moedas (foi ele que mandou cunhar a famosa moedinha chinesa com um buraco no centro).

No ano 246 antes de Cristo, logo depois de chegar ao trono, com apenas 13 anos, Qin chamou artesãos de todos os reinos para construir o seu mausoléu e recriar os seus exércitos em figuras de terracota em tamanho real. Esta arte funerária era expressão na sua crença de que o protegeriam no seu túmulo quando falecesse e o defenderiam dos seus inimigos no Além. Pensa-se que trabalharam nesta obra setecentos mil operários e artesãos.

O mausoléu constava de uma pirâmide de terra com 47 metros de altura e 2180 metros quadrados de área. Este complexo serviu também como palácio e corte imperial. Estava dividido em vários ambientes, salas e estruturas de apoio, e cercado por uma muralha com diversos portões. Toda a obra ficou pronta antes da morte do imperador, em 210 a. C. No decorrer das cerimônias fúnebres, as figuras do exército de terracota foram enterradas nas proximidades do mausoléu, ocupando um imenso retângulo de 62 metros de largura por 230 de comprimento. Estão viradas para leste, de onde se presumia que surgissem os ataques.

Segundo o historiador Sima Qian (145 a. C.-86 a. C.), na obra Registos do Historiador, o imperador Qin foi enterrado em 210 a. C. com grandes tesouros e objectos artísticos, bem como com uma réplica do mundo, em que pedras preciosas representavam os astros, pérolas simbolizavam os planetas e lagos de mercúrio figuravam os mares.

Xian permanecerá, por mais de mil anos, como capital do império unificado e será a sede de onze dinastias chinesas. A cidade adquirirá importância estratégica por estar situada numa importante encruzilhada da Rota da Seda, entre o Sul da Ásia e a Europa e a África, que muitas caravanas percorrerão a partir do ano 200 a. C., e receberá gente de todas as direções.

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Os guerreiros de terracota

Os soldados de terracota permaneceram enterrados cerca de 2.200 anos. As escavações estão em curso, quarenta anos após a sua descoberta. É um trabalho delicado, devido à fragilidade natural do material e à sua difícil preservação. A terracota é argila cozida em fornos com temperatura relativamente baixa, em torno dos 900 ºC.

Os artesãos que esculpiram o exército de guerreiros de terracota de Xian, depois de cozer cada figura, cobriam-na com uma camada de resina, para aumentar a durabilidade. E coloriam-nas com tinta à base de minerais e fixadores, tais como sangue animal ou clara de ovo, para dar realismo às figuras, às suas roupas e equipamentos.

A disposição das três trincheiras revela intencionalidade. A trincheira maior, com mais de 6.000 figuras de soldados, cavalos e carruagens, representa a armada principal do imperador Qin. A segunda trincheira continha cerca de 1.400 soldados da cavalaria e infantaria, também com cavalos e carros de guerra, que retratavam a guarda militar. Na terceira figurava a unidade de comando, com oficiais de alto nível, oficiais intermediários e um carro de guerra puxado por quatro cavalos, ao todo 68 figuras.

Foi ainda encontrada uma quarta trincheira vazia.

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A arte que produziu este exército

As figuras de terracota não foram esculpidas como uma peça só, mas em partes, que foram unidas depois da cozedura. Eram, depois, colocadas no seu respectivo lugar, em formação militar, de acordo com a sua patente e posto.

O conjunto dos pormenores da obra revelam não só a qualidade dos artesãos, mas, sobretudo, o poder do imperador, que tinha autoridade para ordenar a construção de uma empreitada tão monumental. Cada soldado não só varia em peso, vestuário e armas, de acordo com a patente, mas o pormenor vai até ao penteado e à expressão facial individualizada : alguns sorriem, outros estão sisudos. Uns têm barba, outros bigode. Os cavalos parecem estar vivos e as suas bocas abertas sugerem relinchos.


Patrimônio da Humanidade

Os guerreiros de Xian são hoje um sítio arqueológico patrimônio mundial da Unesco desde 1987. São um ícone do passado distante da China. O seu primeiro imperador, Qin Shi Huang, mandou edificar um túmulo que entrou para a História, pois é tão importante quanto as Pirâmides de Gizé, no Egito, ou o Taj Mahal, na Índia.

Portugal acolhe pela segunda vez 150 réplicas em tamanho real das mais de oito mil figuras do exército de terracota de Xian (China). Depois de passarem pelo Porto, em 2015, estão em exposição na Cordoaria Nacional, em Lisboa, até setembro próximo.

Os guerreiros que podem ser vistos foram criados a partir dos originais, encontrados no mausoléu do primeiro imperador da China, que mandou formar aquele exército para o protegerem na tumba e dos inimigos do Além. Mais informações podem ser obtidas na página da exposição : www.guerreirosdexian.com.’

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Fonte :

terça-feira, 18 de julho de 2017

Religiosas socorrem migrantes em sua tragédia

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



‘Os jovens italianos lideram uma missa dominical bem animada na Igreja Católica São Pio X, em Caltanisetta, cidade siciliana do sul, com a ajuda de um migrante africano que segue o ritmo brincalhão de um tambor.

Integrar os migrantes em uma vida normal é um dos objetivos do Projeto Migrante/Sicília, projeto da União Internacional dos Superiores Gerais. As freiras de diferentes congregações em todo o mundo atenderam o apelo urgente do Papa Francisco em 2015 para ajudar os migrantes a fugir dos conflitos e da pobreza.

Chamamo-nos de migrantes entre migrantes’, disse a irmã Janet Cashman, membro das Irmãs da Caridade de Leavenworth, no Kansas. Ela serviu como assistente de saúde nos EUA, no Peru e no Sudão do Sul antes de assumir esse último chamado com o Projeto Migrante/Sicília.

Religiosas estão dando ajuda prática e apoio emocional a dezenas de migrantes que chegam às margens da Sicília. A Organização Internacional das Migrações das Nações Unidas disse que, desde o dia 3 de julho, mais de 85 mil migrantes – dos mais de 100 mil que atravessavam o Mediterrâneo – desembarcaram na Itália este ano.

Quando você olha para o mar, você vê sua beleza, mas o que eu sei é que muitas pessoas estão perdidas lá’, disse a Irmã do Sagrado Coração, Maria Gaczol, ao Serviço Católico de Notícias (CNS). A ONU estima que mais de 2.200 pessoas morreram no mar nos primeiros seis meses deste ano. ‘É também um cemitério, um deserto’.

Antes dos africanos chegarem à Líbia na travessia para a Europa, muitos devem atravessar o deserto do Saara.

Não é um ou dois, mas quase todos falam sobre o inferno que passaram para vir aqui’, conta ao CNS a irmã congolesa Vicky Victoria, das Irmãs Missionárias de Nossa Senhora da África, sobre a perigosa jornada. ‘A maioria deles são traficados, tendo recebido promessas de um bom trabalho na Líbia ou ainda melhor na Europa’.

Mas o primeiro grande desafio é atravessar o Saara vivos. Muitos imigrantes disseram a Victoria que os motoristas que os levam na travessia do Níger só tiram proveito da situação. Muitas vezes dizem aos migrantes que sua caminhonete quebrou no meio do deserto.

Eles dizem : ‘Eu vou repará-lo e vou voltar para levá-los’. ‘Mas eles nunca voltam’, disse ela.

Se os imigrantes abandonados tiverem sorte, algum motorista de caminhão amável retornará para recolhê-los depois de deixar seus passageiros. Contudo, muitas vezes, os migrantes são ‘deixados para andar sem comida nem água’. ‘Eles simplesmente cavam na areia com as mãos e colocam os corpos mortos abaixo’, disse Victoria.

Muitos contam que o que mostra o caminho quando estão perdidos são os ossos, os esqueletos daqueles que morreram ao longo da travessia no deserto’, disse ela.

A tragédia continua : para as mulheres, alcançar a Líbia pode significar ser colocada à força na prostituição, enquanto outras são vendidas como escravas, alguns para trabalhar em fazendas sem nenhum tipo de experiência.

‘Algumas pessoas são muito qualificadas, como médicos, economistas, enfermeiras, professores. Eles são espancados como bestas. Suas costas são apenas cicatrizes’, disse Victoria. ‘Assim é a escravidão hoje, e ninguém fala sobre isso’.

Outros são sequestrados e forçados a telefonar para suas famílias, com seus captores exigindo resgate pelas suas vidas.

Tudo isso, antes de fazer a viagem mortal no Mediterrâneo, muitas vezes em navios não aptos para a navegação. Uma viagem que pode custar até 5.700 dólares.

Muitos já viram seus colegas afundarem em diferentes barcos. Alguns deles estão dentro do barco. Outros ficam sentados na beirada do barco e são engolidos pelo mar’, disse Victoria. ‘Alguns chegam, totalmente fora de si por causa do trauma que viveram’.

A Irmã indiana Veera Bara disse ao CNS : ‘Além de orar com eles, integramos cada um em nossas orações. Suas histórias de vida também resultam difíceis para nós quando as escutamos’.

Um migrante me telefonou dizendo : ‘Irmã, eu não consigo dormir mesmo que me dê um remédio forte. Todos os dias vejo minha família que foi morta vindo a mim como um trauma’, disse ela.

As religiosas oferecem apoio emocional, ensinam italiano e traduzem para os migrantes os processos legais com funcionários italianos e em hospitais. Elas também fornecem refeições e roupas quentes para aqueles que precisam, bem como conduzem aulas de catecismo e mantêm os grupos infantis.

Um dos migrantes ajudados pelas religiosas, Godfrey Wadelwasee, de 35 anos, compartilhou sua própria história da travessia.

O barco estava superlotado, com algumas pessoas desmaiando dentro. Muitas ondas fortes batiam. Eu via calças e bonés daqueles que morreram na superfície das águas. Nosso barco começou a afundar. Nós oramos. Logo, os socorristas vieram e nos apanharam’, disse o nigeriano.

Eu acreditava em Deus, sabia que não morreria. Quando chegamos à Sicília, eles escreveram nossos nomes. Eu encontrei-me em Caltanisetta’, disse Wadelwasee, que está alojado em um acampamento de centenas. Ele, como outros migrantes, espera obter papéis para a residência e o trabalho. Mas as freiras disseram que talvez apenas 10% dos migrantes serão aceitos. Itália ameaçou fechar suas portas, já que só este ano entraram no país 83 mil migrantes, e a Itália está recebendo pouca ajuda de outros países europeus. Mais de 2.000 migrantes já morreram este ano tentando atravessar o Mediterrâneo. ‘É uma tragédia e o mundo deve agir, se tivermos ainda um pouco de humanidade’, disse Victoria. ‘Pelo contrário, as leis foram apertadas e até mesmo os menores que deveriam ser protegidos, não estão sendo mais amparados’.

Enquanto isso, o migrante paquistanês Gishon Payan, de 23 anos, diz que não tem escolha senão tentar trabalhar na Europa para apoiar sua mãe viúva e oito irmãos. Ele tomou um empréstimo de mais de 10.000 dólares para fazer a viagem de dois meses de ônibus e caminhada para a Itália e, se ele não pagar o dinheiro, a vida de sua família está em perigo. ‘A vida está cheia de tensão. Sinto a pressão para obter meus papéis e reembolsar o empréstimo’, disse Payan ao CNS. ‘Não consigo dormir nem comer’.’


Fonte :


domingo, 16 de julho de 2017

Vandalismo

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

O vandalismo não tem limites. É praga daninha que contamina tudo em redor.
 *Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor
  
‘Os Vândalos eram uma tribo de origem germânica, que durante o século V invadiu o Império Romano e instalou-se em Cartago, no norte da África. No ano 455 atacaram e saquearam Roma, ali destruindo importantíssimas obras de arte que se perderam para sempre. Inspirado nesse brutal acontecimento, surgiu o nome ‘vandalismo’ para definir as ações irracionais de depredação de bens públicos ou privados, pelo simples prazer de destruir. Esse termo foi usado pela primeira vez em 1794, pelo bispo Henri Grégoire da comuna francesa de Blois, às margens do rio Loire, para denunciar a destruição de monumentos, pinturas e livros durante a Revolução Francesa. E firmou-se na história pelo envolvimento do pintor Coubert (1871), liderando a destruição da Coluna Vendôme, em Paris, que considerava símbolo da detestada autoridade napoleônica. Foi possível reconstruí-la posteriormente, sendo hoje um dos marcos da capital francesa.

Séculos se passaram, a humanidade progride admiravelmente em alguns aspectos, mas frequentemente comporta-se como os Vândalos do século V. Na segunda guerra mundial, obras históricas de arte forma roubadas ou destruídas pelos nazistas de museus europeus. Já em pleno século XXI, assistiu-se a destruição das estátuas de Buda do século IV, pelos talibãs, em 2001, e a destruição da parte antiga de Palmira, cidade síria fundada no período Neolítico, e violentada em 2015 pelos bárbaros do Exército Islâmico.

Mas os novos vândalos continuam em atividade, também em território brasileiro. Basta caminhar pelas capitais e cidades do interior, para encontrarmos monumentos e construções históricas vandalizadas por grafiteiros, parcialmente destruídas por arruaceiros, tudo sob o olhar complacente de nossas autoridades que falam muito, mas agem pouco, e com tal brandura que cada ação destrutiva realizada impunimente se torna um incentivo aos novos bárbaros, que numa prática imbecil de emulação, suja mais, destrói mais, para superar os bandos rivais, em busca de sórdidas vanglórias.

Nem as propriedades privadas ficam livres desses depredadores. Carros são arranhados, suas peças externas são arrancadas, casas são mutiladas, lugar algum está a salvo desses bandidos. O mais deplorável é verificar que nem sempre se trata de gente ignorante, de baixo nível cultural ou econômico, sendo, com frequência identificadas como pessoas cujo estado social e cultural fazia supor que jamais fossem capazes de tais barbáries. Basta entrar em campus universitários para descobrir, em suas diversas instalações, a ação nefasta desses indivíduos. Banheiros imundos, instalações hidráulicas quebradas, paredes rabiscadas, equipamentos roubados, nos levando a questionar que profissionais estão sendo formados em nossas universidades.

Com os desmandos políticos que arrasam o país de ponta a ponta, surgem os mais do que justos movimentos populares de protesto, que reúnem milhares de pessoas nas ruas e praças denunciando, em alta voz, a corrupção instalada nos diferentes poderes da nação. Os que legitimamente participam desses movimentos, os conduzem com objetividade, seriedade e respeito aos direitos alheios. Contudo, a eles se misturam os vândalos, que na covardia que os caracteriza, escondem-se sob máscaras para ocultá-los com suas intenções malévolas.

Aproveitando-se das multidões, partem para as depredações, quebram vitrines, arrombam lojas, saqueiam-nas, tal e qual fizeram os Vândalos da história, nas ruas de Roma. Instrumentalizados e manipulados por grupos políticos que pouco se importam com a crise econômica e administrativa que assola o Brasil, tentam ampliar o caos e dele tirar proveito pessoal, roubando a varejo, enquanto seus mentores disfarçam seus roubos no atacado.

O vandalismo não tem limites. É praga daninha que contamina tudo em redor. Os estádios de futebol, lugar de diversão para a grande maioria dos brasileiros, hoje são campos de batalha onde só os temerários ou os apaixonados pelos seus clubes, se arriscam ir. Os bárbaros se infiltram entre eles, disfarçados em torcidas organizadas, e aproveitam as circunstâncias para extravasar sua imbecilidade sanguinária. O resultado se vê na mídia do dia seguinte, com os graves prejuízos para os clubes, torcedores gravemente feridos e até mortos, e como em todas as demais situações, muita revolta, muito pranto, mas nenhuma justiça, nenhuma punição exemplar. Afinal, vivemos hoje os tempos aziagos do ‘é proibido proibir’, da cômoda presunção da inocência de todos, dos defensores de porta de distrito, sempre ágeis em tirar proveito pecuniário do vandalismo que nada nem a ninguém respeita.

Tudo isso me faz lembrar do colégio Loyola, que me ensinou, e a meus colegas, respeito aos pais, aos professores, às outras pessoas, e à coisa pública, mas também o latim, com o protesto de Cícero contra Catilina, no senado romano (séc. I aC) : ‘Quousque tandem, Catilina, abutere patientia nostra?’ (Até quando, Catilina, abusarás da nossa paciência?).’


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sexta-feira, 14 de julho de 2017

Crer em tempo de modernidade líquida

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

Essa pintura de Caravaggio, entre tantas interpretações, apresenta uma das questões centrais do Barroco italiano: o questionamento do pensamento religioso.
*Artigo do Padre César Thiago do Carmo Alves,
da Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos)


‘A incredulidade de Tomé é uma das mais célebres obras do Barroco italiano. O Barroco italiano (do séc. XVII até os primeiros decênios do séc. XVIII) é configurado como a arte da Contrarreforma, uma vez que seu surgimento advém do resultado do encorajamento por parte da Igreja Católica à arte sacra como resposta à iconoclastia Protestante. Essa pintura foi feita por Michelangelo Merisi da Caravaggio (1571-1610), inspirando-se em Jo 20,24-29. Vale ressaltar que o texto bíblico não informa se Tomé colocou o dedo no lado de Jesus. A incredulidade de Tomé (óleo sobre tela, 107x 146 cm) se encontra atualmente no Novo Palácio de Potsdam (Alemanha). O quadro faz parte do inventário de Vincenzo Giustiniani, em 1638. No centro está um dedo que toca uma ferida aparentemente funda.  No eixo central da tela se encontra a cabeça do incrédulo Tomé e de outro homem, de identidade desconhecida. Junto aos dois está também outra personagem que seria provavelmente outro apóstolo. O trio dos observadores está à direita enquanto Jesus se encontra à esquerda. As tonalidades das cores marcam a distinção. São fortes na direita as tonalidades de vermelho. Já na esquerda se sobressai o branco. O rosto de Jesus está na sombra enquanto a iluminação repousa sobre o lençol com o qual está envolto o seu peito, a testa de Tomé e o homem que está acima dele. O movimento do quadro parece ser circular. Começa na ferida, sobe até o rosto de Jesus, continua rumo aos três discípulos, desce pelo braço e o dedo de Tomé, voltando assim à sua origem.

Essa pintura de Caravaggio, entre tantas interpretações, apresenta uma das questões centrais do Barroco italiano : o questionamento do pensamento religioso. A dúvida de Tomé representa, metaforicamente, a dúvida que pairava nas pessoas renascentistas. A junção antropocêntrica e teocêntrica baliza o pensamento na arte do período do Renascimento. Mas afinal, o que essa pintura tem a ver com o crer em tempo de modernidade líquida?

Em tempo de modernidade líquida, expressão cunhada pelo sociólogo polonês Zygmunt Bauman (1925-2017) para se referir ao tempo atual, a reflexão sobre Deus ocupa um determinado lugar no pensamento de pessoas crentes ou ateias. Ainda se busca colocar o dedo, como no caso de Tomé. Na procura da certeza de Deus o homem e a mulher da modernidade líquida quer sentir o lado da divindade para poder atestar que ela existe. Em tempo líquido, a divindade corre o risco de também ser fluida. Cria-se um deus conforme a nossa imagem e semelhança. Partindo daí se professa a fé nesse deus. No entanto, o que se comete nada mais é do que idolatria. Na fluidez do crer, deus pode ser nada mais que um fetiche.

Na modernidade líquida, a fé também entra na dinâmica da liquidez. O ato de crer pode até existir, mas com o perigo de ser desvinculado dos conteúdos explicitados por uma comunidade eclesial. De algum modo, o quadro de Caravaggio está muito em conexão com a profissão de fé hoje. O seu contexto se insere no questionamento das questões religiosas. O homem e a mulher do tempo moderno líquido, diante das ciências que se descortina cada vez mais trazendo respostas para tantas perguntas, como a dor e o sofrimento, põem, de certo modo em xeque esse aspecto religioso.

Em algumas questões as ciências ainda não deram conta, e o ser humano lança mão de Deus. A explicação do mal está nesse contexto, por exemplo. Ainda não se achou uma resposta satisfatória sobre esse problema. Não obstante os intelectuais, como Agostinho (354-430), bispo de Hipona, ter se debruçado sobre essa questão, as respostas relativas a essa problemática ainda permanece no campo do provisório. Talvez, o mal seja um verdadeiro problema teológico que coloca em xeque a crença de muitas pessoas, direta ou indiretamente. Com questões elementares, do tipo, se Deus existe, qual é o motivo de tanto sofrimento no mundo? Ou ainda, por que ele permitiu que inúmeros judeus, filhos da promessa, morressem de forma massiva nos campos de concentração da Alemanha nazista? Indubitavelmente, são perguntas pertinentes. Por mais que inúmeras repostas já foram dadas, seja pela teologia como pela filosofia, a questão ainda se mantém posta e em aberto. Isso denota a insatisfação delas.

No cenário latino-americano, diante de tantas injustiças e da pobreza, como acreditar num Deus que permite que os mais vulneráveis continuem a sofrer de forma escalonal? Contudo, desde de um ponto de vista teológico, pode-se dizer que Deus oferece sua reposta por meio da vida de cristãos e cristãs comprometidos com o seu reinado sobre essa terra, lutando por justiça. Diante desse Deus que se preocupa com os mais fragilizados, dando resposta na própria história, se torna possível professar a fé nele. Nesse sentido, o testemunho do crente constitui num elemento chave para dizer de Deus.

Por outro lado, vê-se muito a busca um tanto quanto desenfreada por Deus. Basta ligar a televisão e logo se encontra inúmeros canais com programações religiosas. Todas elas prometendo em nome de Deus, resolver a vida das pessoas, de modo particular em três campos : amor, saúde e financeiro. No mercado religioso, existem infinitas possibilidades para o crer. Contudo, tem que se perguntar qual é a imagem de Deus oferecida e se essa imagem escraviza ou liberta as pessoas.

Colocar o dedo em tempo de modernidade líquida ainda é um referencial para se acreditar. Se por um lado esse gesto pode revelar uma incerteza, por outro ajuda a evitar a cair numa idolatria, pois se verificará que o Crucificado é o Ressuscitado. Do ponto de vista cristão, ajuda a não cair no risco da esquizofrenia da fé. O movimento circular do quadro de Caravaggio, da ferida a ferida, traduz de alguma forma o itinerário que o homem e a mulher da modernidade líquida tentam percorrer em busca de Deus. Uns pelo campo tão-somente do emocional, outros pelo caminho da intelecção da fé, fazendo valer a máxima de Santo Anselmo de Cantuária (1033-1109) ‘fides quaerens intellectum’ (a fé que busca a intelecção).

Crer em tempo de modernidade líquida é um desafio que se descortina no horizonte de toda pessoa crente. ‘Põe o teu dedo aqui e vê minhas mãos! estende tua mão e põe no meu lado e não sejas incrédulo, mas crê!’ (Jo 20,27).’


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quarta-feira, 12 de julho de 2017

Cristãos perseguidos

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

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*Artigo da Redação da Revista Além Mar


‘No primeiro semestre deste ano, houve vários ataques contra os cristãos no Egito. No mês de maio, 28 pessoas morreram e dezenas ficaram feridas num ataque armado a um carro que transportava cristãos coptas para o Mosteiro de São Samuel, na província de Minya, a sul do Cairo. Um mês antes, durante as comemorações da Páscoa, houve também atentados em duas igrejas, em Tanta (na foto) e Alexandria, que causaram 45 mortos e foram reivindicados pelo grupo extremista Estado Islâmico.

Os coptas são a comunidade cristã mais importante e uma das mais antigas do Médio Oriente, representando entre 10 % e 12 % dos 90 milhões de Egípcios. São uma minoria cristã perseguida, mas não são os únicos que são alvo de perseguições em todo o mundo. Em países como a Síria, Iraque ou Cazaquistão, ser cristão pode custar a vida. Segundo a associação Portas Abertas, existiam cerca de 215 milhões de cristãos perseguidos nos 50 países que compõem a lista mundial de perseguição. Todavia, o Cristianismo continua a ser a religião com maior número de seguidores do mundo, há cerca de 2.106.962.000 cristãos em todo o mundo.

Pelo 15.º ano consecutivo, a Coreia do Norte lidera a lista de perseguição aos cristãos. Neste país, o simples fato de colaborar com um missionário cristão já existe o risco de que a pessoa seja presa. O país reforçou as sanções depois que a Coreia do Sul acolheu 468 refugiados norte-coreanos no seu território.’


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segunda-feira, 10 de julho de 2017

O poderoso significado da medalha de São Bento

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)



‘A medalha de São Bento não é um ‘amuleto da sorte’. Trata-se de um sacramental, isto é, um sinal visível de nossa fé.

O uso habitual da medalha tem por efeito colocar-nos sob a especial proteção de São Bento, principalmente quando se tem confiança nos méritos de tão grande Santo e nas grandes virtudes da Cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo! São numerosos os fatos maravilhosos atribuídos à esta medalha. Ela nos assegura poderoso socorro contra as ciladas do demônio e também para alcançar graças espirituais, como conversão, vitória contra as tentações, inimizades etc.

Contudo, a medalha não age automaticamente contra as adversidades, como se fosse um talismã ou vara mágica.

Todo cristão, a exemplo de Jesus Cristo, deve carregar a sua cruz. Pois é necessário que nossas faltas sejam expiadas; nossa fé seja provada; e nossa caridade purificada, para que aumentem nossos méritos.

O símbolo da nossa redenção, a cruz, gravada na medalha não tem por fim nos livrar da prova; no entanto, a virtude da cruz de Jesus e a intercessão de São Bento produzirão efeitos salutares em muitas circunstâncias, a medalha concede, também, graças especiais para hora da morte, pois, São Bento com São José são padroeiros da boa morte.

Para se ficar livre das ciladas do demônio é preciso, acima de tudo, estar na graça e amizade com Deus. Portanto, é preciso servi-lo e amá-lo, cumprindo, todos os deveres religiosos : Oração, Missa dominical, recepção dos Sacramentos, cumprimento dos deveres de justiça; em uma palavra, cumprimento de todos os mandamentos da lei de Deus e da Igreja. Nem o demônio, nem alguma criatura, tem o poder de prejudicar verdadeiramente uma alma unida a Deus.

Em resumo, o efeito da medalha de São Bento depende em grande parte das disposições da pessoa para com Deus e da observância dos requisitos acima mencionados.

Numerosos são os benefícios atribuídos ao crucifixo de São Bento; de fato, se usado com fé e com o Patrocínio do Santo; protege :

Das epidemias;

Dos venenos;

De alguns tipos de doenças especiais;

Dos malefícios;

Dos perigos espirituais e materiais que possam causar o Demônio;

A Santa Sé a enriqueceu com numerosas indulgências : indulgência plenária em ponto de morte; indulgência parcial.


Significado da medalha

 
  
Na frente da medalha são apresentados uma cruz e entre seus braços estão gravadas as letras C S P B, cujo significado é, do latim : Cruz Sancti Patris Benedicti – ‘Cruz do Santo Pai Bento’.

Na haste vertical da cruz lêem-se as iniciais C S S M L : Crux Sacra Sit Mihi Lux – ‘A cruz sagrada seja minha luz’.

Na haste horizontal lêem-se as iniciais N D S M D : Non Draco Sit Mihi Dux – ‘Não seja o dragão meu guia’.

No alto da cruz está gravada a palavra PAX (‘Paz’), que é lema da Ordem de São Bento. Às vezes, PAX é substituído pelo monograma de Cristo : I H S.

A partir da direita de PAX estão as iniciais : V R S N S M V : Vade Retro Sátana Nunquam Suade Mihi Vana – ‘Retira-te, satanás, nunca me aconselhes coisas vãs!’ e S M Q L I V B : Sunt Mala Quae Libas Ipse Venena Bibas – ‘É mau o que me ofereces, bebe tu mesmo os teus venenos!’.

Nas costas da medalha está São Bento, segurando na mão esquerda o livro da Regra que escreveu para os monges e, na outra mão, a cruz. Ao redor do Santo lê-se a seguinte jaculatória ou prece : EIUS – IN – OBITU – NRO – PRAESENTIA – MUNIAMUR – ‘Sejamos confortados pela presença de São Bento na hora de nossa morte’.

É representado também a imagem de um cálice do qual sai uma serpente e um corvo com um pedaço de pão no bico, lembrando as duas tentativas de envenenamento, das quais São Bento saiu, milagrosamente, ileso.


Oração para alcançar alguma graça

Ó glorioso Patriarca São Bento, que vos mostrastes sempre compassivo com os necessitados, fazei que também nós, recorrendo à vossa poderosa intercessão, obtenhamos auxílio em todas as nossas aflições, que nas famílias reine a paz e a tranquilidade; que se afastem de nós todas as desgraças tanto corporais como espirituais, especialmente o mal do pecado. Alcançai do Senhor a graça … que vos suplicamos, finalmente, vos pedimos que ao término de nossa vida terrestre possamos ir louvar a Deus convosco no Paraíso. Amém.


Fonte :


domingo, 9 de julho de 2017

A gratidão e outras gentilezas que nos faltam

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

'Fico imaginando porque o mundo anda tão agressivo, tão áspero, às vezes tão desagradável'
*Artigo de Evaldo D´Assumpção,
médico e escritor


‘Uma das mais belas e pedagógicas passagens dos Evangelhos está descrita por Lucas, no capítulo 17 de seu livro, onde conta que dez leprosos vieram até Jesus pedir por sua cura. Compadecendo-se deles, curou-os e os enviou, como era praxe na época, para se apresentarem aos sacerdotes que constatariam a cura e os libertariam da exclusão social imposta aos portadores daquela doença. Pouco tempo depois, somente um deles retornou para agradecer o imensurável bem que recebera. Curiosamente ele era o único estrangeiro daqueles dez. E Jesus se admirou, comentando com seus discípulos : ‘Eram dez os curados, e somente este estrangeiro voltou para agradecer o que recebeu!

Desde que me entendo por gente, aprendi a agradecer tudo o que recebia. Era uma frase comum na boca de meus pais, quando me viam recebendo alguma coisa, e distraia-me com o que recebera : ‘O que você vai dizer?’ E aquele toque despertava-me para expressar : ‘Muito obrigado!’. E de tanto ser lembrado, aprendi que sempre deveria fazer isso. Contudo, mais do que decorar as palavras, aprendi que elas manifestavam minha gratidão por ter ganho alguma coisa de alguém. Aos poucos fui descobrindo como era bom dizer ‘obrigado’ para quem me proporcionava algo, e também como me era agradável ouvir o mesmo, quando era eu quem dava alguma coisa. Depois aprendi que gratidão é uma palavra de origem latina, gratia ou gratus, que significa agradável, portanto algo que nos traz satisfação. Ou seja, quando me sinto grato e consequentemente movido a agradecer, o faço porque aquilo me trouxe satisfação. Da mesma forma que me compraz a satisfação daquele que recebeu algo dado por mim.

Mas isso não é somente uma coisa superficial e passageira. Pesquisas científicas sugerem que sentimentos de gratidão são benéficos ao bem estar emocional subjetivo, como descrevem os psicólogos e pesquisadores da Universidade de Miami, Emmons & McCullough, em seu livro ‘A psicologia da gratidão’, de 2004. Em outras palavras, a gratidão nos faz bem, tanto quando damos como quando recebemos alguma coisa.

Refletindo sobre esse assunto, fico imaginando porque o mundo anda tão agressivo, tão áspero, às vezes tão desagradável a ponto de pessoas se afastarem do convívio familiar e social, buscando refúgio em lugares mais isolados ou limitando sua vida a ambientes afastados de multidões. Onde não existe a gratidão, onde as pessoas perderam o hábito saudável de dizer ‘obrigado!’, ‘agradecido!’, a convivência entre humanos se torna pouco ou nada agradável.

Mas não é somente a gratidão, que tanto bem nos faz, a gentileza que hoje nos falta. Também outras atitudes, no rotineiro de nossas vidas, contribuem significativamente para a nossa felicidade, nosso bem estar e consequentemente para a nossa saúde. Entre elas, destaca-se o corriqueiro pedido de ‘licença!’. Com o crescimento das cidades, os ambientes públicos tornaram-se repletos de pessoas agitadas, apressadas, intranquilas, e por consequência, ignorando quase totalmente a presença de outras pessoas em torno de si. Tomemos um supermercado, como exemplo. Preocupadas com as compras, a escolha dos produtos e a seleção de preços mais accessíveis, as pessoas são incapazes de dizer ‘com licença!’ ao passar num dos corredores semiobstruídos por outros compradores.

Nas portas de entrada e saída, pessoas têm o péssimo hábito de parar em conversas despreocupadas. Mesmo que nossa vontade seja a de passar por ali como um trator, nada nos custa pedir : ‘com licença!’. Da mesma forma, ao ter de atravessar por uma fila num banco ou em qualquer outro lugar, para passar para o outro lado, também um ‘com licença’ com certeza nos ajudará a aliviar a tensão do dia a dia.

E o que nos custa pedir desculpas, quando esbarramos em alguém, ou quando derrubamos algo que estava em suas mãos, num ônibus, num lugar qualquer? Esta é, aliás, uma das formas mais eficientes para desarmarmos a agressividade das pessoas que se sentem por demais incomodadas quando lhes esbarramos.

Poderia desfiar um longo rosário dessas pequenas, mas necessárias atitudes de cortesia, mas encerro com uma que pode ser considerada a mãe de todas as outras. Quando criança, aprendi a pedir a benção dos meus pais, tios e avós, sempre que os encontrava pela primeira vez no dia. Enquanto minha mãe esteve viva, eu já com mais de 70 anos de idade, nunca cheguei em sua casa sem lhe pedir a benção. O mesmo fiz com meus tios. E hoje tenho a doce saudade de ouvir o suave ‘Deus te abençoe!’ que tanto representava para mim.  Nos dias atuais, vejo filhos, netos, chegarem juntos dos seus pais, avós, e mal balbuciarem um ‘Oi’. E isso, quando o fazem...  Percebo que eles não têm a menor noção do significado e da plenitude do pedido de benção, independentemente de filiações religiosas.

Hoje todos têm pressa, mal enxergam os outros humanos em sua volta. Corpo e mente estão ocupados, apressados, superlotados de compromissos, a maioria totalmente inútil. Por isso mesmo esquecem-se da importância do ‘obrigado’, do ‘por favor’, do ‘com licença’ do ‘sua benção!’. E por isso mesmo, o mundo anda tão amargo, tão fútil, tão pragmático, deixando a vida sem sabor, sem alegria, até mesmo sem sentido. Resgatando as gentilezas que estão em extinção, quem sabe resgatamos também a satisfação de sermos realmente humanos?’


Fonte :


sexta-feira, 7 de julho de 2017

Palestra especial em comemoração ao dia de São Bento


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Tema : A Sabedoria de São Bento na cidade de São Paulo

Palestrante : Dom João Baptista Barbosa Neto, OSB


Dia 11 de julho de 2017, às 14h

Mosteiro de São Bento de São Paulo


ENTRADA GRATUITA!


Na ocasião, o palestrante lançará seu mais novo livro : 

‘As Peripécias de Jennifer : das trevas à luz. 
O percurso de uma conversão’


quinta-feira, 6 de julho de 2017

Valor da solidariedade

Por Eliana Maria (Ir. Gabriela, Obl. OSB)

A solidariedade, por ser um valor capaz de requalificar, permite reconstruir o esgarçado tecido da cidadania.
 *Artigo de Dom Walmor Oliveira de Azevedo,
Arcebispo Metropolitano de Belo Horizonte, MG


‘Viver a solidariedade é indispensável para possibilitar que as práticas políticas recuperem a sua inteireza. É necessária uma limpeza nos mais variados mecanismos de funcionamento da política. E de forma urgente. A solidariedade, por ser um valor capaz de requalificar, permite reconstruir o esgarçado tecido da cidadania. Por isso, em todos os momentos, em diferentes sociedades, é indispensável fazer referência, propor iniciativas e refletir sobre a solidariedade.  No coração da prática solidária está o princípio fundamental e inegociável da consideração para com o outro. O apóstolo Paulo faz essa recomendação, estabelecendo esse valor como fundamento da identidade daquele que tem fé. Explica o apóstolo: exemplar é o gesto de Deus ao oferecer à humanidade o que tem de mais precioso, seu filho Jesus, o Salvador. Assim, Deus antecipa-se no gesto de reconciliação com o ser humano, deixando a lição fundamental de que é preciso reconhecer a importância do outro. Esse ‘outro’ é você, eu, cada um de nós. Esse princípio tem força de equilíbrio, pois conduz a civilização na direção humanística que permite superar crises.

Embora muitas vezes se reconheça o valor da solidariedade, sabe-se que não é tão simples plantar e fazer florescer essa convicção nos corações. Na política, por exemplo, em vez de se investir nos gestos solidários, prevalece a crença de que avanços diversos dependem de conchavos, ideologias partidárias ou simplesmente das promessas nunca cumpridas. Contenta-se assim com ensaios de lucidez, insuficientes para atender aos urgentes anseios do povo, principalmente de quem é mais pobre. Falta, pois, na sociedade brasileira, um tecido solidário de qualidade.

Quase sempre, o que se verifica no Brasil é um discurso de autoelogio sobre certas práticas dedicadas aos outros. Em ‘alto e bom som’, há os que proclamam que a cultura latina e a brasilidade têm na solidariedade um valor inerente. Fazem referências desdenhosas a outras culturas marcadas pela objetividade, interpretando essa característica como ‘frieza’. Mas, na prática, isso serve apenas para aliviar as consciências de pessoas que não se doam ou se contentam em fazer tímidas doações a projetos sociais.

Ora, isso é bem diferente do que ensina o princípio apresentado pelo apóstolo Paulo - considerar a importância do outro. O apóstolo adverte que a liberdade, quando se torna pretexto para buscar o que satisfaz, mas não convém, provoca desastres. Incapacita a competência humana e espiritual de amar ao outro como a si mesmo. O resultado é nefasto, diz o apóstolo : ‘Se vos mordeis e vos devorais uns aos outros, cuidado para não serdes consumidos uns pelos outros!’. Paulo indica o caminho a seguir : ‘Fazei-vos servos uns dos outros, pelo amor’.

Ao trilhar esse percurso e reconhecer o valor da solidariedade, colabora-se com a construção de uma cultura que contemple fortes sentidos de pertencimento, patriotismo e apurada sensibilidade humana - que se desdobra em gestos e ofertas mais generosas. Quem se faz servo apura a própria visão da realidade e consegue ouvir os clamores de quem necessita de ajuda. Por isso mesmo, urgente e prioritário neste momento em que a sociedade brasileira precisa sair da crise é reconhecer que a solidariedade é determinante nas dinâmicas sociais.  Isso não é uma simples reflexão teórica, mas indicação de uma exigência moral com força transformadora, pois possibilita o surgimento de atitudes que estão na contramão das violências que dizimam, das corrupções que sucateiam e da perda da percepção de que todos são destinatários, igualmente, de condições dignas.    

A solidariedade é, pois, princípio social e virtude moral. Vivenciá-la é investir na edificação de um contexto novo e melhor. Sem esse princípio e virtude, não se conquistam os ordenamentos sociais almejados. As relações pessoais continuarão comprometidas e em processo crescente de deterioração. E um perverso ciclo é alimentado, pois as pessoas tornam-se cada vez mais distantes das estruturas dedicadas à solidariedade. Com isso, por ignorância, são perpetuadas regras e leis que são inumanas e pesadas.

Para além de um sentimento qualquer de compaixão vaga e superficial, a solidariedade tem o valor de despertar e criar o gosto imperecível pelo bem comum. E todo cidadão para ser eterno aprendiz do valor da solidariedade tem que praticá-la, diariamente, permanentemente. Esse exercício exige considerar a importância do outro, abrir os olhos e os ouvidos para nunca ser indiferente com as dores do mundo, lutar para sair das zonas de conforto e deixar-se incomodar pelos sofrimentos da humanidade. Uma postura que requer, inclusive, a disposição para tirar do próprio bolso quantias a serem destinadas a projetos sociais e ações solidárias. Pois, a sociedade estará na direção de superar seus descompassos e a cidadania se qualificará quando prevalecer o inestimável valor da solidariedade.’


Fonte :